Moçambique (Nacala – Chocas Mar)

 

Acordei cedo e com o corpo a escorrer suor. A t-shirt que servia de pijama estava húmida e colada ao corpo, enquanto os lençóis da cama jaziam trucidados junto dos meus pés.

Na minha mente pairavam as últimas lembranças da noite anterior e os últimos minutos de um sonho que me acompanhava há já umas centenas de quilómetros.

Lembrava-me de ouvir durante horas a fio, as vozes de indivíduos que saiam da discoteca localizada nas traseiras do bairro e que tentavam controlar as “damas” que se faziam “passear” na rua àquela hora da noite. Acabei por aperceber-me que o estabelecimento tinha um nome francês que acabava “ô”, tipo “Poirrot”, “Bateau”, “Tableau”… ou qualquer coisa do género… ou então sonhara com o nome…

Atribuía a razão do meu suor matinal, ao já habitual sonho de que eu havia terminado a viagem de bicicleta e encontrava-me algures dentro de um avião a caminho de casa, onde o único horizonte à vista, era a adaptação à vida do normal quotidiano. A única diferença com os sonhos anteriores era que desta vez levava na bagagem uma roda de bicicleta partida. A mesma roda que eu esperava reparar em Nacala, mas que por forças das circunstâncias ainda se encontrava montada na bicicleta.

Pelas frinchas da janela conseguia ver que o Sol ainda estava a vestir-se, antes de sair à rua para iluminar aqueles que queriam ausentar-se de casa.

As poucas horas de sono fizeram-me tender, para uma precipitada despedida de Nacala, sem tentar reparar o aro da bicicleta.

Valia-me um velho dito, que acabou por conduzir-me a uns importantes minutos de reflexão, “…barriga vazia não pensa direito…”.

E foi sobre esta sabedoria popular que me dirigi ao café da esquina para aconchegar o estômago. Optei por um normal pequeno-almoço, com uma sandes mista, um prego no pão e um copo de café com leite, para começar bem o dia.

Quando me dirigi ao balcão para pagar, o empregado perguntou-me se eu estava hospedado na Pensão Bela Vista. Respondi-lhe afirmativamente, um pouco intrigado com a sua perspicácia.

- O mata-bicho está incluído para hóspede da pensão. – E apontou para um pequeno balcão na lateral no estabelecimento, onde estava exposto um modesto buffet.

Não foi preciso repetir a instrução. Voltei disfarçadamente para trás, passei no pequeno balcão, carreguei uma pratada de papaia, 2 sandes mistas, uma espécie de bolo, mais umas coisitas que não sabia o nome, um copo de sumo natural e regressei à minha mesa.

Agora sim, estava em condições para reflectir sobre a minha estadia (ou não) em Nacala.

A permanência em Nacala prendia-se apenas com a questão do aro e em conhecer um pouco a cidade. No entanto o meu interesse por explorar esta cidade portuária, murchara. Em parte devido ao trânsito caótico do dia anterior e em segundo lugar pela constante barulheira da noite passada.

Arrancar para a Ilha de Moçambique (ou directamente para Nampula) sem reparar a roda traseira, era arriscado. Tanto era, que havia experimentado desagradáveis surpresas na última etapa com o meu pneu chinês, comprado no Malawi.

Nos breves segundos que demorei a chegar ao quarto, no primeiro andar da Pensão Bela Vista, havia escolhido uma destas duas opções.

Iria partir em direcção à Ilha de Moçambique.

O aro andava partido há mais de seis centenas de quilómetros, por isso deveria aguentar pelo menos outra centena até à Ilha de Moçambique. Caso este resolvesse ceder de vez… então na devida altura analisaria o problema e qual seria a solução a tomar.

Estava com vantagem nas unidades temporais, pois ainda antes da 8h00 já me encontrava nos subúrbios de Nacala e preparado para dar corda ao pedais até ao destino proposto.

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Diante mim, estava uma estrada alcatroada e em bom estado. Tal possibilitaria rolar a boa velocidade e manter boas médias, não fosse a constante acção limitadora do meu companheiro… o “vento”.

Tentava ao máximo impor o meu ritmo na pedaleira tripla, pois a pedaleira dupla apresentava sérios sinais de desgaste e eu ainda tinha pela frente mais de 2.500Kms até chegar a Maputo.

Para compensar a acção multiplicadora da tripla, tinha que ajustar a relação com os carretos traseiros. Mas nem sempre era fácil manter o trabalho das pernas a um nível aceitável, obrigando-me a usar o prato do meio sempre que surgia uma subida, mesmo que ligeira.

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Era natural que a corrente e os carretos apresentassem desgaste depois de percorridos mais de 5000Kms, no entanto a minha análise (a olho) ao material dizia-me que ainda poderia rolar por algumas centenas de quilómetros sem efectuar a substituição da corrente. Deveria, contudo, manter o prato duplo debaixo de olho e tentar pedalar em primeira ou em terceira.

DSCF6719 À medida que avançava na etapa, o Sol adiantava-se na sua escalada aos céus aumentado agradavelmente a temperatura.

Como reacção às novas condições climatéricas, os poros da minha pele libertavam o excesso de sumo natural que bebera momentos antes, no restaurante da Pensão Bela Vista.

 

Aproximadamente 1h30 depois de ter deixado Nacala, o meu estômago dava sinal que já havia espaço para mais qualquer coisa. Afinal os glutões que nele habitavam estavam em boa forma e haviam assimilado o composto pequeno-almoço, ainda antes das pragmáticas 3 horas de digestão.

Parei no primeiro local de venda de géneros alimentares para abastecer-me de bananas.

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Rapidamente fiquei rodeado de curiosos que limitavam o meu campo de visão, impedindo-me de escolher qual o cacho a comprar. Nem mesmo com a intervenção do dono da banca, que tentava desesperadamente vender-me algo, foi possível chegar perto das bananas.

A solução adoptada, foi a táctica do Moisés. Com um braço esticado na direcção das “minhas” bananas, fiz sinal para o mar de gente se afastar, prometendo que tiraria uma fotografia de grupo.

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Pedalava estrada fora, com as nuvens dos Simpsons à minha frente ao mesmo tempo que deliciava-me com as minhas bananas. Subia e descia longos vales que exigiam das minhas pernas uma dedicação extra, em grande parte devido à pedaleira tripla.

Há vários dias que o iPod seguia um shuffle, mas mesmo assim quase que conseguia adivinhar qual a musica que viria a seguir.

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Estava a caminho da Ilha de Moçambique, um prodígio da presença portuguesa em África e do qual eu tentava manter as minhas expectativas a um nível baixo.

Diminuindo as expectativas, aumentaria a hipótese de ficar impressionado pela positiva, ao contrário daquilo que acontecera em Pemba. No entanto era difícil controlar a excitação que navegava nas minhas veias, por poder visitar um lugar com séculos de história.

Eram as 11h40 quando cheguei a Namialo, onde encontrei o entroncamento da N105 com a N8.

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Seguindo em frente, iria em direcção a Nampula. Rumando à esquerda, ia na direcção do meu destino do dia, que encontrava-se a 52Kms dali.

Tendo em conta a minha velocidade média até então, estimava cerca de 3 horas para chegar à Ilha de Moçambique, o que significava que teria tempo suficiente para encostar algures e comer/beber alguma coisa descansado antes de percorrer os quilómetros finais.

Pouco depois de ter virado à esquerda para a estrada N105 encontrei um lugar apelativo para parar. Era uma casita na minha esquerda, pintada de branco com um pátio de cimento à entrada chamada a “Heroína”. Nas paredes estava pintada a ementa. Sandes disto e daquilo, petisco assim petisco assado. Só de ler o rico menu, as minhas glândulas salivares iniciaram o processo de produção de saliva, normalmente chamado de baba.

Parei a bicicleta e dirigi-me à empregada que encontrava-se no pátio a apanhar ar. Pedi-lhe uma bifana:

-Não tem – respondeu. Pedi então uma sandes.

-Não tem – repetiu a empregada. Voltei a ler a ementa pintada a pincel, na parede do estabelecimento e perguntei:

-Disto tudo que está aqui escrito, o que é que tem? – Voltei a ouvir uma resposta esclarecedora:

-Nada! Se quer comer, tem que ir à outra “Heroína” um pouco mais lá na frente.

Olhei para o fundo da estrada na tentativa de descortinar qual o significado de “um pouco mais lá na frente”, mas a simpática empregada esclareceu prontamente que não se via. Seriam apenas 2Kms ao longo da estrada e o estabelecimento encontrar-se-ia do meu lado direito.

Agradeci e avancei no percurso em busca do desejado estabelecimento.

Percorri a custo os 2Kms indicados, sempre com a miragem de um bom petisco diante dos meus olhos. No final dos 2Kms, não encontrei o dito edifício.

Percorri o 3º e o 4º quilómetro que apresentavam um gradiente de dificuldade relativa, para chegar ao final sem sinais da outra “Heroína”.

De seguida pedalei mais uns longos pares de quilómetros e quando já havia perdido a esperança de encontrar a tão aclamada petisqueira, eis que esta surge do meu lado direito.

A Heroína, era um simpático restaurante que em tudo fazia lembrar os típicos estabelecimentos que povoam as estradas nacionais do Sul de Portugal.

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Na frente do restaurante, um grande pátio coberto por trepadeiras que protegiam os clientes dos raios solares. Ao fundo, dentro do estabelecimento, estava o balcão de atendimento e do seu lado direito uma pequena salinha com algumas cadeiras.

À minha esquerda, um grupo de “brancos” confraternizava ao sabor de algumas cervejas. Não prestei atenção em que língua falavam, pois a minha consciência direccionava todos os meus sentidos para a leitura e interpretação da vasta ementa, que faria qualquer um soltar fios de baba pelos cantos da boca.

Podia ler no cardápio todo o tipo de petiscos. Das moelas ao presunto, da feijoada às punhetas de bacalhau. Após uma audaz luta contra mim mesmo (e assim evitar escolher um prato de cada), optei por umas espetadinhas de cabrito regadas com Coca-Cola.

Encontrava-me no paraíso dos petiscos. Não me cansava de estar sentado, com os pés em cima de uma cadeira, enquanto lambia o molho das espetadas que escorria nos meus dedos decorados a óleo e pó.

Alguns minutos mais tarde e sem dar conta da incorporação, encontrava-me inserido no grupo de “brancos” que partilhavam o pátio comigo.

Começaram por falar comigo em inglês e depois em espanhol, mas rapidamente passámos para português quando descobrimos que todos falávamos a língua de Camões.

Após as habituais explicações acerca da minha viagem e depois de algumas informações úteis sobre a Ilha de Moçambique, fui convidado a acompanhar o grupo até Chocas-Mar com a promessa que não iria arrepender-me.

Passaram uns custosos minutos de indecisão, afinal de contas estava a adiar a minha chegada à famosa Ilha de Moçambique. Contudo acabei por aceitar o convite e ir verificar com os meus olhos o que é que a praia das Chocas teria para oferecer.

Mapa

Despedi-me do Carlos e do Jorge com a promessa que nos encontraríamos cerca de 2 horas mais tarde, na primeira casa do lado esquerdo de quem desce para praia das Chocas.

Segundo as indicações várias vezes repetidas (para que não houvesse erros), eu teria que pedalar aproximadamente 15Kms, ao longo da estrada principal. No final desses 15Kms, encontraria uma picada à esquerda que me levaria a Mossuril e posteriormente a Chocas-Mar.

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A estrada de terra batida estava em bom estado de conservação, fruto de uma recente reabilitação da mesma. Nas laterais, havia alguns campos de cultivo que alimentavam a população local e nos quais diziam haver jibóias tão grandes que, uma vez na estrada, pareciam troncos de árvores que barravam a via.

Razão pela qual aconselharam-me a apressar a rotação dos pedais e chegar a Chocas-Mar antes de o entardecer. Altura essa, em que o longo pedaço de “pele de sapato” cruzava de um lado para o outro da picada.

Ao longo da extensa recta até ao Mossuril, fui ultrapassado por vários veículos de 4 rodas que pareciam competir entre eles para o prémio de “Quem levanta mais pó”.

 

Uma atitude um pouco infantil e desajustada à via em que seguíamos, não só porque cobria-me de poeira, como também espalhava-a para as habitações contíguas à picada. Para não falar na segurança rodoviária.

No entanto já estava habituado ao facto de o ciclista ser o alvo das cobardias e frustrações dos motoristas, que imperativamente impunham a sua posição através de uma carroçaria de metal, montada em 4 rodas e com um motor.

Opinião esta, partilhada pelos muitos jovens que na berma da estrada tentavam vender-me sacos com castanha de caju, pacotes de bolachas ou mesmo cigarros avulso, ao mesmo tempo que soltavam elogios aos motoristas:

- Vê lá esse cabrão aí!!!

Às 15h45 dava entrada na Vila de Mossuril.

DSCF6733Uma pequena localidade às portas do Índico e com a Ilha de Moçambique como pano de fundo a uma dezena de quilómetros.

 

A primeira impressão de Mossuril era de uma vila pacata e bonita, no entanto deixaria a parte da exploração da localidade para o dia da minha viagem de regresso e em direcção à Ilha de Moçambique.

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À saída de Mossuril, a sede não me deu tréguas assim que os meus olhos avistaram uma placa publicitária da Coca-Cola, que estava colocada numa esplanada.

Numa acção irreflectida, os meus braços viraram o guiador da bicicleta para a direita e as pernas aceleraram o passo. Montado na bicicleta, atravessei a esplanada de cimento, passei na estreita porta do estabelecimento e só parei quando a roda da frente chocou contra o balcão da loja.

O empregado que folgava sentado na esplanada ao som de uma batida, veio a correr para trás do balcão dizendo:

- Bicicleta não pode entrar!

Ao qual eu respondi de sobrancelhas em “V”e seguido de um sorriso no lábios:

- Agora já estamos cá dentro! Vai servir-me uma Coca-Cola ou não?... E já agora um pacote de papas Cerelac… e outra Coca-Cola que esta já acabou…

Após curar as gretas da minha garganta seca, iniciei uma complexa operação de retirada da loja. Não tinha espaço nem forças para rodar a bicicleta no pequeno espaço disponível, pelo que após várias tentativas, optei por sair do estabelecimento de marcha-à-ré e montado na bicicleta.

Percorri a dezena de quilómetros restantes até à Praia das Chocas em pouco mais de 30 minutos. Eram as 16h26 quando finalmente desci a rua que levaria à praia e onde encontraria a tal primeira casa do lado esquerdo… a casa do Jorge.

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Dez minutos depois, estava sentado à mesa na varanda da casa do Jorge com os meus novos amigos, a Kara, a Ana, o Jorge, a Sylvia e o Daniel (que viria a descobrir ser um pseudo-conterrâneo meu).

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Imediatamente fui convidado a comer qualquer coisa com eles. Ainda tentei recusar, mais por receio das minhas maneiras à mesa do que por falta de apetite, no entanto não resisti mais que umas breves décimas de segundo.

Ataquei o caril de camarão, o arroz, a salada, pão, fruta e tudo o mais que estivesse em cima da mesa e se pudesse trincar. Valia-me o facto de os meus anfitriões já terem almoçado, libertando-me da preocupação de ter que partilhar comida.

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O convívio durou por mais umas 3 horas, altura em que decidimos ir jantar. Ideia bastante aplaudida por mim, visto já estar há algum tempo sem comer.

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O acontecimento seria no restaurante da Carrusca Mar & Sol onde nos encontrámos com o resto do grupo.

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O Jorge, a Tatiana, a Maria, o Lucas, a Sylvia, a Ana, eu, o Daniel e a Razia (o Alejandro e o Carlos estavam ocupados a “tentar” segurar na máquina de fotos).

De Nacala a Chocas-Mar foram 121Kms, percorridos em 8h35m e onde contei com 1h51m de paragens “técnicas”.

5 comentários:

  1. Viagem épica sem dúvida. Tem todos os ingredientes de uma grande história e embora já saiba como termina é sempre um prazer retomar aqui a leitura.

    Felicidades!

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  2. a foto do mercado com os miudos a olhar para a camara, va para a reportagem!

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  3. Passado 8 meses... finalmente conseguiste chegar às Chocas ehehe :)

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  4. Então amigo tudo bem por essas bandas??
    Esqueceste referir que o estabelecimento em Mossuril era outro " Heroína "...
    Grande Abraço...
    Carlos e Razia

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  5. Pedro, obrigada pela partilha. Vou no final deste mês para a Ilha sozinha e tudo o que li no seu blog foi de grande ajuda. Até descobri que conheço a família "Heroína "... Irei procura-los também. Obrigada!

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