Moçambique Fase III (Inhassoro – Mapinhane)

 

Acordei cedo para preparar as minhas malas. Perto das 8h00, tomei o meu último pequeno-almoço na Casa Luna, na companhia do Carlos e da Aziza.

De estômago já conformado, estava preparado para agarrar a bicicleta e voltar a pedalar.

Após perto de 1 semana sem me sentar na minha bicicleta, eis que iria dar início a mais uma etapa. Seriam apenas 95Kms até Mapinhane, mas à parte do estado da bicicleta, os meus principais receios vinham da reacção do meu corpo ao esforço físico e ao Sol, após os dias de baixa com malária.

Eu sentia-me totalmente recuperado, mas isso era em condições normais e não debaixo de um esforço físico constante e com o Sol a bater na mona.

Eram as 9h25 quando iniciámos o processo de despedidas e tirámos as fotografias de família.

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Agradecimentos consumados (se é que alguma vez ficariam pagos) e chegava a hora de partir…

Deixei Inhassoro cheio de vitalidade nas pernas para chegar ao destino do dia.

Por um lado, custava deixar o conformo de “um lar”, para começar a pedalar novamente. Por outro lado, o meu corpo já pedia pelos pedais há muito tempo e já não se conciliava com a boa vida.

Voltei à estrada estreita por onde havia pedalado aquando da minha chegada a Inhassoro, mas desta vez em sentido contrário. Seguia ao encontro da EN1 com Inhassoro e o Oceano, nas minhas costas.

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Poucos quilómetros depois de ter iniciado a etapa, acabaria por ficar danado da vida. Acabara de observar que o vento estava de Sul e já com alguma intensidade. Tal façanha meteorológica só teria um significado:

- Assim que eu chegasse à estrada Nacional Nº1, e rumasse em direcção a Sul… seria obrigado a enfrentar o”amigo” vento…

14 Quilómetros depois, cheguei ao cruzamento com a EN1, rumei para Sul, levei com as primeiras golfadas de vento bem de frente e prossegui viagem.

A cabeça e o corpo ainda não acusavam as sequelas da malária, o que eram boas noticias.

Estava a avançar dentro dos parâmetros que eu havia delineado para a primeira etapa pós-malária, o único “senão” continuava a ser o vento frontal.

O cenário que me rodeava era exactamente o mesmo das últimas centenas de quilómetros. Uma estrada de alcatrão estreita e em péssimo estado. Muito trânsito pesado. Nos lados era mato de meia altura, a maior parte dele queimado, resultado das inúmeras queimadas provocadas pelos habitantes locais. De resto era sempre a mesma coisa.

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A etapa do dia estava a ser altamente monótona, ainda com a agravante do vento contra. Limitava a concentrar-me nas minhas matemáticas de previsões de chegada, distância percorrida etc com breves inspecções ao trabalho efectuado pelas duas pernas, para me certificar que estas perfaziam os ciclos de 360o a que estavam destinadas.

2h30m depois de ter iniciado a viagem até Mapinhane, eis que chego a “meia-distância” do final da etapa.

Decidi parar para esticar as pernas, relaxar um bocado, verificar se estava tudo bem com o meu metabolismo, comer um chocolate e verificar o comportamento da roda traseira da bicicleta.

Resultado, já tinha um raio partido. Como o dito raio era do lado dos carretos traseiros, para o substituir eu seria obrigado a desmontar a roda por completo. Decidi saltar este passo e seguir viagem com o raio partido. Já estava por tudo com tantos raios partidos…

Pouco depois cheguei ao cruzamento para Vilanculos.

Logo no início, o maldito placard verde que insistia em recordar-me a “meia-dúzia” de quilómetros que restavam até Maputo. Poucos metros depois, a indicação de estrada N240 para Vilanculos.

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Inicialmente Vilanculos fazia parte do meu plano de viagem, pois era uma povoação que me despertava interesse em visitar. Mais por ouvir falar do que por outra coisa qualquer.

No entanto eu havia desistido da ideia, devido aos dias a mais que ficara “internado” em Inhassoro.

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Se eu mantivesse a minha intenção inicial, estaria nesse momento a virar para a esquerda em direcção às praias. Mas a única mudança de direcção que fiz, foi também para a esquerda, mas em direcção à barraca que vendia Coca-Cola.

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Faltavam cerca de 30Kms até Mapinhane e eram apenas as 13h05. Iria chegar cedo ao meu destino.

Mantinha o meu organismo debaixo de uma monitorização constante para identificar algum sinal de uma malária mal curada. Mas os diagnósticos efectuados indicavam que tudo estava em bom funcionamento, apenas um certo cansaço ao nível das pernas, que eu encarava como normal, tendo em conta o vento que vagueava nas redondezas e tendo em conta o factor de recuperação da enfermidade.

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Os últimos longos 15 quilómetros, foram percorridos a uma velocidade bastante inferior à velocidade média até então.

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As pernas acusaram o cansaço (algo que eu não censurava) e o organismo não estava a responder da melhor maneira.

Optei por não esforçar e deixar-me seguir devagar até à povoação de Mapinhane.

 

Cheguei a Mapinhane às 14h55. Um símbolo conhecido, chamou a minha atenção e consequentemente captou o meu interesse como possível estabelecimento para almoçar e talvez pernoitar.

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Dirigi-me ao balcão do estabelecimento, verifiquei a existência de quartos e sentei-me para almoçar um guisado de cabrito. Enquanto esperava pelo almoço, decidi vistoriar os quartos disponíveis para escolher o melhorzinho.

À primeira vista, nenhum dos quartos satisfazia a minha pretensão. À segunda vista, também não…

Teria em primeiro lugar, de eliminar os níveis de acomodação da Casa Luna da minha cabeça. Só depois é que conseguiria entrar na realidade e voltar a apreciar a modesta acomodação que me era oferecida pela recepcionista.

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Voltei para a esplanada para almoçar o prato do dia.

Enquanto devorava a comida, verificava de longe o estado da bicicleta, para rapidamente descobrir que tinha 2 raios partidos. Parecia que estava sentenciado a substituir raios até ao fim da viagem.

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Efectuei também uma breve inspecção às rodas dentadas da bicicleta, para concluir que estas encontravam-se em bastante mau estado, deixando-me algumas dúvidas se iriam aguentar até Maputo.

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O resto do dia fora passado a reparar a bicicleta e a dar ao meu corpo o repouso devido.

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De Inhassoro a Mapinhane, percorrera 96Kms em 5h21m, com direito a 19 minutos de paragens… nada mau para quem tinha vindo de uma malária.

1 comentário:

  1. Boa Tarde Pedro Fontes,
    Neste capítulo já está com uma carinha melhor...! Cuidado com essa última imagem ;)
    Cumpts, MM

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