Moçambique Fase II (Nhamapaza – Gorongosa)

Continuava com sérias dificuldades em retirar o corpo da cama, dentro do mesmo fuso horário do despertar na minha mente. Foram necessários 45 minutos de dedicação, para conseguir arrancar os lençóis de cima de mim. Eram as 7h15! Já estava atrasado.

Dirigi-me à cozinha do jango, onde jantara na noite anterior, para verificar se a água para cozinhar o meu esparguete instantâneo (com sabor a vegetais), já estava no ponto.

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Pelo caminho, pude observar (sem ser através da luz de uma lanterna) o local onde tomara o banho do dia anterior. Um pequeno cubículo, construído em tijolo e cimento e protegido por uma chapa ondulada, com duas entradas distintas. Na parede da frente, havia pinturas que ordenavam a distinção dos sexos entre as duas entradas. Algo que viria a provocar-me alguma perplexidade pois eu não as havia visto na noite anterior, fazendo-me suspeitar que utilizara a casa-de-banho errada.

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Faltavam 15 minutos para as 8h00, quando finalmente pude degustar o nicho de esparguete que teria como a primeira refeição do dia. Apesar de saber que o pequeno-almoço que estava diante dos meus olhos era em pouca quantidade para a etapa proposta, eu permanecia de consciência tranquila. Afinal de contas, várias pessoas tinham-me confirmado que havia muita fruta à venda nas povoações ao longo da estrada.

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A etapa até à vila da Gorongosa continha 130Kms por percorrer. Calculava despender 8 horas para cobrir a distância até ao destino, e o facto de deixar a pensão às 8h40m, não deixava muito tempo livre para distracções.

O dia estava bastante agradável para mais uma etapa de bicicleta em África. O céu praticamente sem nuvens, deixava que os raios solares fossem gradualmente aquecendo o ambiente.

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A estrada encontrava-se ligeiramente em pior estado do que o troço antes de Caia. Aqui e acolá podiam-se ver vários remendos no asfalto para tapar buracos existentes num passado recente. As bermas eram agora mais estreitas obrigando-me a circular na faixa de rodagem e consequentemente a redobrar a atenção relativamente aos veículos que vinham da minha retaguarda. No entanto, e comparativamente com etapas anteriores, poderia considerar que pedalava numa via com características de “auto-estrada”.

A paisagem apresentava-se completamente seca e/ou queimada, o que fazia-me supor que não havia chovido ultimamente por estas paragens, tal como chovera uns quilómetros mais para norte.

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Passava apenas 1h30m desde que saíra de Nhamapaza, quando o meu estômago iniciou a sua emissão de impulsos ao meu cérebro.

DSCF7707Estava na altura do reforço alimentar.

Ainda não tinha encontrado nenhum vendedor de nada em lado nenhum, pelo qual fui obrigado a atacar prematuramente o pacote de bolachas de coco, para amansar o inconfortável vazio que se alojava dentro de mim.

 

Cedo as pernas acusaram uma “inexplicável” fadiga, que consumia lentamente a minha alegria matinal e tornava a etapa algo penosa. No entanto, o facto de avistar ao longe o Monte Gorongosa, fazia-me pensar (enganosamente) que estaria “próximo” do final da etapa. Mas uma vez no sopé da enorme montanha, eu ainda teria que circunscrever aproximadamente 80Kms até atingir a povoação do outro lado - a vila da Gorongosa.

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A minha dependência por bebidas doces e gaseificadas começava a causar-me algum mau estar e irritação. Agora era a garganta que exigia uma bebida fresca e de preferência, que não fosse água.

A adicionar a esta penúria, ainda tinha que aturar um estômago forrado com migalhinhas de bolachas de coco, que também não parava de reclamar o seu estado de “vácuo”.

Contava saciar as minhas penosas carências em Muera, uma povoação localizada a 66Kms de Nhamapaza e que no meu mapa, vinha assinalada como a única povoação existente até à Gorongosa.

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Com o passar do tempo a fraqueza desceu às pernas, para nelas se alojar com carácter de permanente. Voltava a sentir as pedaladas cada vez mais pesadas e com cada vez menos rendimento, ao mesmo tempo que na minha mente navegava a imagem de uma Coca-Cola bem gelada, acompanhada de um cacho de boas bananas. Uma imagem que me faria desenrolar a língua até ao alcatrão, não fosse o facto de esta encontrar-se seca e colada ao céu-da-boca.

A incerteza da exacta localização da povoação de Muera, fazia-me suspeitar que se encontraria em qualquer lugar ao virar da próxima curva. Contudo a realidade não era a desejada, com curva após curva percorrida, não encontrava povoação nenhuma com o nome de Muera.

DSCF7718 Alguns infindáveis quilómetros depois, cheguei a uma ponte. Numa placa estava escrito “Rio Muera”!

-Já estou perto… – Pensei.

Mas alguns quilómetros adiante, apercebi-me que não só estava perto, como também já havia passado pela povoação! Não podia crer que Muera era constituída apenas por 6 barracas de palha que estavam à beira da estrada, um punhado de quilómetros atrás.

Ia por água abaixo o meu sonho de engolir uma Coca-Colca fresca e de agasalhar o meu estômago com algo comestível. Teria obrigatoriamente que contentar-me com umas bolachinhas de coco, que já pouco efeito provocavam.

Ao longe podia ver a consequência do Monte Gorongosa no clima da região. De um lado da montanha, o céu estava praticamente limpo. Do lado oposto, um conjunto de nuvens com mau aspecto, aguardava a sua vez para entrar em cena. Curiosamente, era para lá que eu me dirigia…

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Em menos de uma hora, encontrava-me coberto por um manto de nuvens altas, que impedia os raios de Sol de trazerem algum ânimo ao meu dia.

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Contava com 4 horas a pedalar sem qualquer paragem, na busca de uma certeza. A que encontraria vendedores de comida ao longo da estrada. No entanto os únicos vendedores com que me cruzei, eram os comerciantes de gasóleo “desviado”, com os seus jerricans de plástico amarelo ou azul, empoleirados numa banca de palha.

As pernas continuavam doridas. Por vezes, com os braços, ajudava os joelhos a irem para baixo e assim dar um pouco mais de rendimento à pedalada. Mas pouco depois, acabei por parar e conceder algum descanso aos quadríceps e isquiotibiais, que há muito vinham a queixar-se.

DSCF7724 Fiz alguns alongamentos e umas leves massagens nas pernas, para aliviar a tensão muscular.

Degustei algumas bolachas, desta vez de chocolate (as de coco haviam acabado), verifiquei o estado da minha ferida, voltei a alongar os músculos, respirei fundo e considerei-me pronto para regressar à estrada.

 

Perfiz pouco mais de mil metros e uma curva, quando vejo diante mim a magnificência de um Centro Comercial! Lentamente abrandei a marcha à procura da loja que me convinha - a das bananas. Por todo o lado proliferavam bancadas improvisadas onde se vendia desde o feijão à alface, passando pela batata e pelo tomate.

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A custo e quase no fim da linha, encontrei o estabelecimento que iria abastecer-me de bananas. Antes de iniciar a negociação da fruta, rodei o olhar à procura do moço das bebidas, contudo não foi necessário varrer 180º para verificar que este já se encontrava ao meu lado.

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DSCF7728 Bebi a Coca-Cola (à temperatura ambiente) e deverei 3 bananas em poucos minutos.

Sob o sorriso e o olhar curioso dos vendedores, reiniciei a etapa até à Gorongosa.

Sentia-me outro… Estava com as baterias recarregadas e sem dores musculares. As pernas giravam livremente e sem grande esforço, conseguia manter a velocidade média dentro dos padrões estabelecidos.

Minutos depois, o céu voltou a ficar azul e Sol voltou a iluminar o meu dia. Parecia que tudo estava a endireitar-se para o meu lado, não fosse o facto de imediatamente a seguir, chocar de frente com o maior vendaval desde que entrara em Moçambique, o qual fazia curvar as árvores à sua passagem.

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Valia-me as pernas recarregadas, que não diziam que não, a mais uma volta na pedaleira. No entanto, tinha a consciência que a continuar a este ritmo, as minhas pernas não iriam aguentar muito tempo e voltariam ao estado de carência do qual haviam ressuscitado.

Passavam aproximadamente 30Kms a navegar com vento contra, quando chego a uma povoação de nome Nhamadzi. Era uma pequena aldeia sem rede eléctrica e sem grandes condições, no entanto eu não iria perder esta oportunidade para repousar um pouco e abonar o meu organismo com algumas calorias.

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Devido ao vendaval, a minha velocidade variava entre os 8Kms/h e os 16Kms/h, tornando difícil calcular quanto tempo demoraria até alcançar o final da etapa.

Faltavam 26Kms para chegar à Vila da Gorongosa. O vento aumentava cada vez mais, trazendo consigo, algumas das nuvens escuras da região. O céu, de cor roxo tenebroso, fazia-me acreditar que seria obrigatório o uso do impermeável nos últimos 15 a 20Kms da etapa.

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O estado da corrente da bicicleta piorava de dia para dia. Nem a corrente nem os carretos aguentavam um aumento brusco de binário, pois cada vez que me propunha a faze-lo, soltavam-se fortes estalidos metálicos e a corrente passava-se nas rodas dentadas. Obrigatoriamente teria que trocar de corrente quanto antes para evitar o aumento de desgaste nos carretos e assim tentar que os mesmos chegassem a Maputo ainda com sinais de vida. Esta tarefa seria agendada para a estadia no Parque Nacional da Gorongosa, onde além de outras coisas, esperava ver pelo menos um leão.

Dei entrada na vila de Gorongosa às 16h15 e prontamente avencei em busca de uma pensão para pernoitar. Acabavam de cair alguns pingos de chuva sob a minha cabeça e eu não queria ser apanhado na rua quando a “choveirada” começasse.

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Junto da população local informei-me sobre o local a ficar. Indicaram-me a pensão Vila Azul, um local relativamente bem estruturado e onde poderia usufruir de um bom descanso. No entanto tal não viria a verificar-se, pois além dos quartos estarem num patamar fora do meu orçamento, o director adjunto da pensão mostrou-se completamente intolerante às minhas preces. Após longos minutos de negociações e renegociações, decidi abandonar o local e procurar uma pensão mais em conta.

Em boa hora (começava a chover torrencialmente) acabei por encontrar a Pousada Magaço, uma humilde e simpática pensão onde fui bem recebido por todos os funcionários e onde o preço dos quartos estava dentro dos limites previstos (apesar de notar um certo aumento do valor dos mesmos à medida que rumava para Sul).

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Uma vez no quarto, notei que a resistência eléctrica que me proporcionaria tomar um banho de água quente, encontrava-se desactivada. Ou melhor, nunca tinha sido ligada. Alertei a recepção acerca do problema, que prontamente (30 minutos depois) enviou um electricista e o seu ajudante ao meu quarto para fazer a ligação eléctrica.

Estranhamente reparei que a equipa de electricistas trazia apenas um martelo, uma chave de fenda grande e uma faca. Em poucos minutos vi o electricista principal, a abrir um buraco na parede da casa de banho usando apenas a chave de fenda (como punção) e o martelo.

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Sem desligar o quadro eléctrico, retirou o plástico de isolamento dos cabos com a ajuda da faca que trazia no bolso de trás e… alguns minutos depois começou a correr água quente pelo chuveiro da minha casa de banho.

 

 

O pior viria a seguir, quando o electricista tentou fechar a caixa de derivação dos cabos eléctricos. Com tantas derivações piratas, era impossível colocar a tampa da caixa. No entanto a sua insistência só culminou quando este conseguiu partir a respectiva tampa, deixando a sua obra de arte a descoberto.

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O jantar teve lugar no salão mal iluminado da pensão, onde puder repor as minhas energias com uma pratada de nshima com galinha e um par de Coca-Colas.

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De Nhamapaza até Gorongosa percorrera 128Kms em 7h31m, onde apenas 38 minutos foram dispensados para o relaxe muscular e para a ingestão de calorias.

A próxima etapa seria até ao Parque Nacional da Gorongosa onde era aguardado pelo Vasco Galante e onde iria passar uns dias para visitar a reserva e aproveitar para reparar a bicicleta.

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