Moçambique Fase III (Chidenguele – Xai Xai)

 

Tomei o meu pequeno-almoço tranquilamente no restaurante da pensão. Não havia pressa para iniciar a etapa pois a distância até Xai-Xai era relativamente curta. Pouco mais de 65Kms, separavam Chidenguele de Xai-Xai. Contudo a distância a pedalar poderia ser alterada com a visita à praia com o mesmo nome.

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Iniciei a etapa às 9h05, pedalando na estrada de areia rumo a Estrada Nacional 1.

15 Minutos mais tarde, encontrava-me em cima do alcatrão.

As nuvens do dia anterior ainda permaneciam nos céus, dotando de um ar cinzento todo o cenário em meu redor.

Por seu lado, a estrada encontrava-se em óptimo estado e convidava a andar. Quanto ao relevo do traçado, passavam a surgir com frequência longas subidas de baixo ou médio gradiente, que exigiam demasiado da corrente e dos carretos da minha bicicleta.

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Constantemente, a cremalheira tripla e a corrente, cortavam relações entre ambos, fazendo com que a minha pedalada fosse completamente em vão e que os meus joelhos acabassem por se estatelar nos cantos do guiador.

O baixíssimo perfil que os dentes da tripla apresentavam, já não conseguia segurar a corrente desgastada, obrigando-me a limitar a aplicação de binário… se é que eu queria que a minha “transmissão” aguentasse os quilómetros restantes até a Maputo.

Mas apesar do elevado desgaste verificado em toda a minha bicicleta, eu acreditava que esta chegaria a Maputo… nem que fosse a pedalar em 1ª velocidade… ou a pé… mas havia de chegar.

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Um pouco por toda a parte (e cada vez com mais frequência) avistava árvores, troncos ou paus com sacos brancos pendurados. De início não dei grande importância ao facto. Mais tarde (com o objectivo de não ficar ignorante e não com o objectivo de saciar a minha curiosidade) resolvi perguntar o que havia dentro dos sacos brancos.

- Castanha – Respondeu – Castanha de caju… Vai levar?

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Pedalava a bom ritm, estrada fora mas sem pressas de chegar. Apreciava cada pedalada que os últimos quilómetros até Maputo me proporcionavam, tal como se fossem a primeira das pedaladas ainda em Angola.

Não sentia ponta de vento nem subidas apesar de ambos estarem presentes. Encontrava-me em piloto automático, tentando magicar mais alguns planos para os 10 dias que restavam no meu passaporte, antes do meu visto caducar de vez…

No meu horizonte imaginário, estava apenas a praia de Xai-Xai, a cidade de Xai-Xai e a praia do Bilene como destinos a visitar. Depois disso, seria a recta final de 2 dias a pedalar até Maputo.

Inesperadamente a estrada coberta de bom tapete de asfalto acabou, dando lugar a uma via de terra batida Na minha faixa, um conjunto de montinhos de terra espalhados uniformemente, estendiam-se até perder de vista. Na faixa contrária, um misto de terra batida e areia criavam as condições mínimas para o trânsito passar nos dois sentidos.

Optei por seguir por entre os montinhos, o que me deu um certo gozo de voltar a pedalar aos saltinhos e sem me preocupar com o estado da roda traseira.

Segui por uns 500 metros ao longo do “fora-de-estrada” artificial até que cheguei à cortada para a praia de Xai-Xai. Estava a 4Kms da cidade, todavia optei por rumar em direcção às praias e percorrer os 10Kms que me separavam da orla costeira.

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Cheguei à praia, eram as 13h15. Automaticamente a fome começou a dar sinais de maneira acentuada. Na realidade a última vez que havia ingerido algo, tinha sido há 5 horas atrás e encontrava-me em cima da bicicleta a pedalar há pouco mais de 4 horas.

Procurei por um restaurante típico ao longo da costa, mas o único que encontrei foi o restaurante do Hotel “Complexo Turístico Haley”, onde almocei maravilhosamente bem sentado numa esplanada à beira-mar.

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A praia de Xai-Xai parecia-me bonita e limpa, no entanto não cativou o meu interesse afim de querer pernoitar numa das pensões existentes. Não só porque parecia-me demasiado turístico como também porque preferia despender alguns dos dias restantes em algo mais atractivo… Fosse lá o que isso fosse…

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Pouco passava da 15h00 quando decidi seguir viagem até à cidade de Xai-Xai. Os poucos quilómetros que ainda teria que pedalar, permitiam-me chegar a tempo e aproveitar a luz do dia para uma curta visita à cidade.

Seguia entretido com as minhas utopias mentais através de uma estrada estreita e sossegada, quando algo de surpreendente algo chamou a minha atenção para coisas mais terrenas…

…estava a ser ultrapassado por um mini-ciclista!

Eu estava habituado, que todos aqueles que tinham bicicleta, faziam de tudo para me ultrapassar. Uns com a intenção de demonstrar a sua capacidade física, outros por orgulho próprio, outros para me pedir dinheiro e outros até para pedir emprego. A maioria era jovem, outros eram velhos, alguns eram crianças e poucos eram mulheres.

No entanto, este caso era diferente de todos os outros alguma vez vistos.

Na frente e a segurar o volante da bicicleta, seguia o ciclista que não fazia outra função senão a de conduzir o velocípede… ou seja, era o condutor.

Pedais… não existiam… pelo que o audaz condutor seguia de pernas penduradas no selim. Os pneus de ambas as rodas, já não habitavam nos respectivos aros originando um certo chinfrim metálico a cada centímetro de alcatrão percorrido. A corrente que (eventualmente) faria a transmissão entre a roda pedaleira e a roda de trás… também não pertencia aquele conjunto mecânico.

Antes de me interrogar como é que a bicicleta do meu oponente se deslocava, eis que aparece a explicação para a minha dúvida…

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Um segundo elemento estava encarregue de fazer todo o trabalho de propulsão do velocípede, de modo a que este conseguisse efectuar e concluir a ultrapassagem.

Assim que houve a confirmação que os seus objectivos haviam sido alcançados, dá-se a saída de pista e consequente tentativa de trazer a bicicleta novamente para a faixa de rodagem… já com o travão de emergência preparado, caso algo corresse mal…

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2 Segundos depois, dá-se o colapso do elemento propulsor que pelas devidas razões achou que estaria na altura do merecido descanso.

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Sem dar por ela, percorri os 14Kms até à cidade de Xai-Xai… talvez em menos tempo do que pretendia. Se calhar devido ao peixe grelhado do almoço (xaréu), que havia fornecido energia a mais ao meu organismo, ou se talvez por vir entretido praticamente o tempo todo, mas o facto era que encontrava-me no centro de Xai-Xai.

Ainda tinha pouco mais de 1 hora de luz solar, o que me permitiu dar uma volta pela cidade antes de procurar alojamento.

Xai-Xai revelava-se uma cidade mais pequena do que eu imaginava. Não era que fosse uma cidade pequena, era simplesmente mais uma ratoeira da minha mente que criava expectativas das coisas e dos lugares, completamente diferentes do que elas eram na realidade.

Possivelmente influenciada pela imponência da cidade da Beira, pela proximidade a Maputo e pelo facto de Xai-Xai ser a capital da Província com o mesmo nome, o meu subconsciente iniciou um processo de criação de cenários possíveis para a cidade de Xai-Xai.

Acabara por sair tudo ao contrário.

Xai-Xai era uma cidade que (á parte da avenida principal, por onde passava todo o trânsito da EN1) era bonita, com várias casinhas bem arranjadas e cuidadas. As construções em altura eram poucas e a maior parte dos edifícios governamentais, incluindo o dos Caminhos-de-Ferro, encontravam-se bem conservados e com boa apresentação.

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Após a volta de reconhecimento à cidade, decidi procurar um lugar onde pernoitar.

Acabaria alojado no Hotel “Ponto de Encontro”, um edifício dos anos 60-70 situado mesmo no centro de Xai-Xai, onde ao sabor de um galão e de umas torradinhas planeava cuidadosamente os restantes dia até chegar a Maputo.

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Inicialmente havia colocado a hipótese de perder um dia completo ou em Xai-Xai, ou na praia com o mesmo nome. Acabaria por optar em poupar esse dia de descanso em Xai-Xai e seguir directo para o Bilene já na manhã seguinte.

Até à praia do Bilene seriam 60Kms ao longo da Estrada Nacional 1, para no final destes efectuar um desvio de 33Kms para as praias…

Ansiosamente, esperava pelo dia seguinte… mas em simultâneo, tentava evitar que a minha consciência se direccionasse para a Praia do Bilene, com o objectivo de evitar que esta criasse, mais uma vez… as ditas falsas expectativas…

Moçambique Fase III (Inharrime – Chidenguele)

Despertei cedo tal como era hábito e preparei-me para mais uma etapa, desta vez até Chidenguele, cerca de 110Kms a Sul de Inharrine.

Depois de um pequeno-almoço, do qual devorei tudo o que puseram na mesa, despedi-me da equipa da Jolly Rogers Lodge e fiz-me à estrada. Eram as 8h00.

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Calculava que os quilómetros até Chidengule ocupassem cerca de 6 horas do meu dia. Não era das etapas mais longas, nem era das etapas mais curtas… eram simplesmente 110Kms que teriam que ser percorridos, ainda mais que a bicicleta parecia recuperada do mal que fustigava a sua roda traseira, raios e pneus. Agora só tinha que me preocupar com todo o sistema de corrente e carretos, que voltavam a acusar o elevado desgaste, mesmo depois das “limadelas” do Artur Tinoco para refazer os dentes das cremalheiras.

Iniciei a etapa debaixo de um Sol radioso e prometedor. No entanto este não quis fazer-me companhia por muito tempo, pois alguns minutos mais tarde, já se encontrava escondido atrás de umas nuvens de baixa opacidade, aparentado não querer mostrar-se tão cedo.

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Em poucos quilómetros de jornada, voltavam a aparecer os inoportunos sinais verdes relembrando-me constantemente dos ínfimos quilómetros que restavam até Maputo. Encontrava-me a 378Kms do fim da minha viagem, o que poderia ser traduzido em 3 a 4 dias com os pés nos pedais. Já não havia muitas escapatórias para passar mais uns dias em cima da bicicleta…

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Segui viagem por uma estrada em bom estado, entre palmeiras, coqueiros e outras árvores que aguardavam o início da época das chuvas depois de uns meses sem a rega devida.

O vento começou a fazer das suas, ainda cedo. Soprava cada vez mais forte, por vezes com rajadas, fazendo parecer que um temporal se aproximava. Em simultâneo o céu ficava progressivamente mais escuro, mas nada alarmante. O Dia ainda era de dia, não havendo na minha visão panorâmica, nenhuma nuvem que o pudesse transformar em noite.

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Aos poucos a minha preocupação deixou de ser as condições meteorológicas, para passar a ser as condições das minhas engrenagens e da minha corrente.

Mesmo pedalando em tripla, a corrente começava (novamente) a saltar sempre que impunha um pouco mais de ritmo nos pedais. Estava completamente proibido de aplicar binário no centro pedaleiro, correndo o risco de arrancar o que restava dos dentes da cremalheira maior.

Uma vez que o prato do meio (2ª cremalheira) estava feito num disco, cada vez que surgia uma ligeira subida, eu era obrigado a passar de tripla para primeira.

De modo a compensar a desmultiplicação, tinha que alongar a relação com os carretos traseiros, submetendo a corrente a um trabalho cruzado entre engrenagens. Uma prática a evitar em qualquer bicicleta, era óbvio. Contudo no estado lastimoso em que tinha a minha corrente estava após 7.750Kms, esta conseguia funcionar mesmo que os carretos fizessem um ângulo de 90º entre eles. O importante era que os dentes das engrenagens aguentassem até ao final da viagem.

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45Kms depois de Inhambane cheguei a Quissico, uma localidade famosa pelas suas lagoas. Infelizmente, escolhera mal o dia para visitar e apreciar as lagoas, pois o tempo ficara encoberto, tornando a paisagem cinzenta e sem o esplendor merecido. Mesmo assim decidi parar a marcha para contemplar a tranquilidade que as lagoas proporcionavam. Para isso bastava abstrair-me da (normal) inquietude da povoação de Quissico, que se situava mesmo nas minhas costas.

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Poucos minutos depois, retomei a etapa… para encontrar o meu “amigo” verde…

Pedalava há 3h20m sem parar e sem comer. Havia pedalado pouco mais de metade da distância até Chidenguele e considerei que estaria na altura de repor os meus níveis energéticos, mesmo quando não sentia ponta de fome ou de fraqueza.

Parei numas bancas mesmo à saída de Quissico, onde comprei alguma fruta. Desta vez acrescentava uns citrinos à minha “dieta”, que a além de bananas e Coca-Cola, contava agora com tangerinas.

Reiniciei a pedalada (mais uma vez) com o propósito de chegar a Chidenguele cedo.

O céu estava cada vez mais cinzento e o vento cada vez mais forte. Contrariamente a outros dias semelhantes, estes fenómenos naturais não estavam a afectar o meu andamento.

 

As pernas não apresentavam sinais de cansaço e a moral estava…

… bem… a moral estava simplesmente a saborear os últimos dias de viagem e não se encontrava disponível para insultar as condições meteorológicas…

Pouco depois começou a “morrinhar”, baixando consideravelmente a temperatura ambiente. Não me importei com tal facto. Continuei a pedalar, certificando-me ocasionalmente se a mala frontal e os alforges traseiros, estavam ou não a deixar passar água para o seu interior.

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Entre cacimbo, morrinha, chuviscos, chuva molha-tolos ou chuva leve… fui ficando completamente ensopado. Foi quando achei por bem que deveria parar e aplicar as capas impermeáveis nos alforges e em mim mesmo.

Outrora, eu estaria a rogar pragas pelo facto de estar a chover em plena época seca. Obrigando-me a parar debaixo de uma árvore e a passar 10 minutos a tentar aplicar as capas amarelas nos alforges.

Agora, já não me chateava com isso… era apenas mais uma molha e muito possivelmente, a última até Maputo.

Após os 10 minutos da praxe dedicados a proteger as malas com as capas impermeáveis, ao mesmo tempo que segurava numa bicicleta de 40Kgs com o canto do ombro… eis que parou de chover!

Imediatamente lembrei-me dos tempos de Angola, em que por pouco não arranquei as capas à dentada, quando ocorreu um episódio similar.

Desta vez, deixei estar… a minha tensão não subiu nem uma décima percentual.

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Verifiquei se estava tudo em ordem com os impermeáveis que acabara de aplicar e continuei viagem, sem me preocupar em vestir o meu impermeável.

 

 

O cheiro a terra molhada misturado com o odor emanado pela evaporação da água no alcatrão, invadia-me as narinas puxando para a flor da pele, várias recordações das fortes chuvada que enfrentara no interior Angolano.

Todavia, este era um momento de curta duração pois começava novamente a chover e desta fez com maior intensidade que alguns minutos atrás.

Pouco depois entrei numa parte da estrada que estava em bastante mau estado, apesar se ser alcatroada. As bermas desapareceram por completo e as vias de rodagem mal davam para dois veículos se cruzarem. O troço da estrada parecia estar em reparação, contudo não avistava vivalma a trabalhar, possivelmente estariam na sua hora do almoço.

Os motoristas que partilhavam a mesma via comigo, pareciam não se importar com a minha existência. Muitos passavam tangentes às minhas pernas de tal modo que não cabia um pêlo de um gato.

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Às 14h20 cheguei a Chidenguele.

Olhei à minha volta mas não encontrei praticamente nada. Apenas um estádio de futebol com várias barraquinhas nas imediações.

Possivelmente não estaria no centro da Vila. Talvez este fosse algures afastado da Estrada Nacional Nº1. Sabia que Chidenguele era relativamente famosa pelas suas lagoas e praias. Também sabia que nas praias haveria alojamento… mas era mais que certo que era um alojamento fora do meu orçamento.

Sondei a área à volta do estádio de futebol à procura de uma porta aberta, mas nada. De repente avisto uma placa publicitária de uma pensão a poucos quilómetros do estádio. Bastava seguir a estrada de areia que iria desaguar na praia.

 

Pouco depois encontrava-me à porta da N’Kwazi Lodge. Uma pensão com ar simpático, nas margens de uma das lagoas de Chidenguele e situada a uns 3Kms das praias.

Decidi entrar na pensão, pois não me apetecia afastar da EN1, ainda mais sabendo que a continuação da estrada seria de areia.

A pensão tinha óptimas condições e uma paisagem tranquilizadora (mesmo com o tempo completamente encoberto), que adicionado a uns minutos de conversa com o gerente fez com que eu decidisse em pernoitar naquela local… afinal uma noite, não são noites… e eu podia dar um bocadinho de conforto ao meu corpo.

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De Inharrime a Chidenguele percorrera 113Kms em 6h55m, onde 52 minutos foram passados à velocidade zero.

Neste momento, encontrava-me a 64Kms da cidade de Xai-Xai. Restava-me saber se optaria por seguir para o centro da cidade ou se virava para a praia com o mesmo nome… seria uma questão de analisar as condições meteorológicas, na manhã seguinte.

Moçambique Fase III (Inhambane – Inharrime)

 

Após um bom pequeno-almoço na Residencial Olinda (Africa Tropical), onde se incluía um pacote de esparguete instantâneo com sabor a galinha, despedi-me do Mário e iniciei a etapa do dia.

O destino final seria Inharrime, tal como havia planeado no dia anterior. Pela frente teria cerca de 90Kms, que caso não houvessem problemas de maior, seriam percorridos em 5 horas de tempo.

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Eram as 8h45 quando me despedi de Inhambane. Segui ao longo da marginal em direcção a Lindela, onde me esperariam uns 30Kms de estrada alcatroada, mas em mau estado de conservação. Somente após percorrer estes 30Kms, é que voltaria a encontrar a estrada Nacional Nº1 que me levaria em direcção a Sul.

O começo da viagem deu-se quase na ausência de vento. No entanto este rapidamente resolveu aparecer para me dificultar a jornada. Além de vir em sentido contrário ao meu, o vento ainda transportava consigo uma ligeira descida de temperatura, que o Sol não fazia intenções de aquecer.

 

Seguia aos saltinhos pela estrada fora, devido às irregularidades do alcatrão, fazendo-me temer pela saúde das minhas rodas “novas” e de todos os suportes de bagagens que também já demonstravam bastantes sinais de cansaço.

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Pouco passava das 10h30 quando cheguei ao cruzamento com a EN1, onde passei a pedalar numa estrada em boas condições e com bermas largas.

 

Alguns metros mais à frente o inconveniente placard verde que fazia questão de lembrar-me a distância remanescente até Maputo. Uma espécie de tortura psicológica que me atormentava o cérebro ao ver os quilómetros a diminuir cada vez mais.

A cada instante, encontrava-me mais próximo do final da minha viagem e eu já não conseguia inventar muitos mais trajectos secundários onde pudesse ocupar mais do meu tempo a explorar o país, a desfrutar do prazer de descobrir e a apreciar da liberdade de escolher o destino de cada dia.

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Na prática, era possível chegar à Capital Moçambicana em 4 dias de viagem. Todavia essa não era a minha intenção. Considerava que ainda não estava mentalmente preparado para “encostar” a bicicleta e deixar de lado todas as vivências que a viagem me proporcionava.

Continuava a querer mais, e mais, e mais… apesar de ter a perfeita noção que neste momento pedalava “dentro do jardim de casa” e que a porta era já ali…

Chegavam a passar-me pela cabeça outros itinerários mais arrojados, incluindo a hipótese de chegar a Maputo e voltar para trás… para onde? Não sabia. Apenas para trás.

Mas como vinha sendo hábito, nada melhor que um abanar de cabeça para descer com os pés à Terra e voltar a embarcar na realidade que me rodeava.

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A paisagem envolvente não era suficiente cativante para manter os meus pensamentos afastados de novas aventuras. A musica gasta do meu iPod também em nada afectava o meu moral. Passava horas de auscultadores enterrados nos ouvidos e a debitar música, contudo não me conseguia lembrar da última música. Por sua vez, consegui adivinhar sem grande esforço qual a próxima musica a tocar, mesmo estando o iPod em shuffle!

Com algum esforço consegui direccionar a minha mente para o planeamento das próximas etapas, tal e qual como o roteiro teria que ser… até Maputo.

Através de umas breves recordações daquilo que lera num guia turístico emprestado, havia algumas praias bonitas para visitar ao longo da costa. No entanto já me haviam avisado que a maior parte delas seriam inacessíveis de bicicleta. Os seus acessos estavam condicionados a veículos de Todo-o-terreno.

Sendo assim, teria pela frente apenas as Lagoas de Chideguele, a praia de Xai-Xai e a praia do Bilene. Duas etapas depois, estaria em Maputo onde seria o “Fim” da minha viagem. Seria então altura para empacotar a trouxa, desta vez em caixotes (e não na bicicleta) e voltar a casa… à vida normal.

Era este, o que eu considerava ser o maior desafio da minha viagem. Ou seja o “Regresso à vida normal”. Não eram os dias no mato, os leões, os hipopótamos, as noites na tenda ou a roda da bicicleta… era simplesmente o “Regresso” e o “Depois…”.

Com o sindroma do final da viagem, vinham os pensamentos nostálgicos dos momentos vividos até então. A “caloirice” dos primeiros dias, ainda em Angola, os dias a pedalar no meio do mato, as pessoas que conheci ao longo de milhares de quilómetros e todos os problemas com a bicicleta.

Lembrava-me da razão que me fez embarcar nesta viagem, nos preparativos e nos dias passados a tentar colocar o meu projecto de pé. Agora, meio ano depois, encontrava-me a poucas centenas de quilómetros do final daquilo que considerava ter sido uma viagem de sonho.

Teria urgentemente que arrumar os pensamentos nostálgicos e concentrar-me nas próximas etapas. Possivelmente teria que dedicar algum do meu tempo a mentalizar-me que “encontrava-me no final da viagem” e que estaria na altura de aceitar os “novos desafios”, fossem eles qual fossem…

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Continuava numa estrada plana, em bom estado e repleta de coqueiros em ambos os lados. O trânsito não era significativo apesar da proximidade à Capital do País, o que me permitia pedalar relativamente relaxado.

Pouco passavam das 11h00 quando a fome começou a marcar a sua presença dentro do meu estômago. Afinal de contas o meu pequeno-almoço composto por esparguete, um prego no pão, uma tosta de queijo e um galão, havia sido ingerido há 3 horas atrás.

Decidi acalmar a situação com algumas bolachas, desta vez de chocolate e não de coco, de modo a enganar o estômago e a fornecer alguma energia às minhas pernas.

Por todo o lado surgiam audazes “artistas” que queriam, a todo o custo, mostrar os seus dotes em cima de uns pedais.

Alguns mais humildes que outros, no entanto já não havia uma restrição quanto ao sexo, nem quanto à idade dos meus pseudo-oponentes.

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Ao longo da estrada, proliferavam os vendedores de piripiri, com as suas bancas repletas de fracos e frasquinhos dos mais variados tamanhos e feitios.

O produto (leia-se o piripiri) de fabrico caseiro, depois de pilado e misturado com os devidos condimentos, era introduzido através de um processo manual em fracos usados dos mais diversos produtos. Desde pequenos frascos de café moído até às garrafas de azeite passando pelos frascos de compota.

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Para atrair os compradores, os fracos eram deixados em prateleiras de fabrico artesanal ao longo da estrada. Na sua maioria… ao Sol… o que fazia-me duvidar (ligeiramente) sobre as verdadeiras características da mistura fabricada, no que respeita às consequências para o trânsito intestinal do consumidor.

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Às 12h50 passei pelo entroncamento com a estrada para Zavora, um dos destinos tinha em mente até há uns dias atrás. Ainda fiquei tentado em abandonar o trajecto previsto para o dia e rumar em direcção a Zavora. No entanto, após algumas pedaladas a pensar no assunto decidi que não ia “voltar para trás”, voltar a percorrer os “500 metros” já percorridos e ficar condenado a pedalar 22Kms de areia e dunas. Teria que mentalizar-me que agora o caminho era para a Frente e que não valia a pena andar a inventar roteiros alternativos.

Iria seguir para o destino estipulado na noite anterior, ou seja Inharrime.

25 Minutos passados, avistei a Padaria do Viajante. O local ideal para forrar o estômago com alguma coisa.

Não sei o que me passou pela cabeça, mas o facto de ler “Cooperação Portuguesa” na parede da padaria, fez-me sonhar com uma vitrina apinhada de bolos e pasteis de todos os sabores. Ao fundo da parede certamente estariam umas estantes com todos os tipos de pão, quentinho… acabado de sair do forno.

Entrei na Padaria do Viajante a salivar de gulodice...

Dois minutos mais tarde, saía da Padaria do Viajante com um pão (papo-seco) na mão…

Não havia mais nada…

… Mais uma vez, a minha capacidade de criar expectativas havia me deixado ficar mal…

Peguei na bicicleta, com o estômago mal forrado e percorri os últimos quilómetros até Inharrime, onde cheguei 10 minutos depois. Eram as 13h20.

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Entrei na povoação pela EN1. Percorri a estrada à procura de um lugar para passar a noite e parei junto de um edifício onde estava inscrito “Motel Inharrime”.

Perguntei a 2 indivíduos que estavam sentados na entrada do mesmo edifício, onde eu poderia passar a noite. Ambos me responderam que não sabiam.

Voltei a perguntar a mesma coisa mas usando outras palavras mais objectivas – Pensão? Onde?

Tornaram a responder que não havia.

Com os nervos quase a rebentar, perguntei-lhes se o local onde estavam sentados a beber uma cerveja, não era um “Motel”?!… e se não fosse um motel, onde é que eu podia encontrar outro lugar com quartos…

Responderam – Sim… tem quartos lá dentro…

Poucos segundos depois, vinha a saber que um dos meus informadores… era nem mais nem menos que o empregado do bar do “Motel Inharrime”…

Já dentro do motel, e após certificar-me que havia quartos livres, pedi para ver um dos quartos, uma vez que achei os preços ligeiramente inflacionados.

Percorri juntamente com o recepcionista, um labirinto de corredores por entre quartos improvisados, construídos nas traseiras do edifício principal. A falta de arejamento fazia com que os quartos permanecessem húmidos, bolorentos e com as condições propícias para existir uma colónia de mosquitos, em cada um deles.

Apesar dos standards dos quartos estarem dentro dos meus níveis, achei que ainda teria tempo para procurar algo igualmente barato e com melhores condições de”arejamento”.

Percorri um par de quilómetros para Norte (em direcção oposta à minha) onde avistara um placard com indicação da “Jolly Rogers Lodge”.

À chegada deparei-me com um lugar bastante calmo, com a recepção/restaurante no centro do terreno e rodeado de extensos relvados. Os quartos, eram blocos pré-fabricados espalhados um pouco por todo o lado e que tornavam o espaço atraente para um resto de tarde em repouso.

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Apresentei-me à gerência da Jolly Rogers Lodge (um simpático casal de Sul-Africanos) que prontamente arranjou-me um quarto para pernoitar, a preços mais convidativos que os do Motel Inharrime.

Os quartos, completamente feitos em contraplacado e madeira, eram de uma construção muito simples e básica, aparentando terem já alguns anos de “vida”. Contudo para mim estava perfeito. Tanto os quartos, como todo o espaço em si.

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O único “senão” era o facto de o restaurante fechar as portas às 19h00, o que obrigava-me a escolher o jantar antes da hora de encerramento e depois leva-lo numa marmita de esferovite para o quarto, onde poderia deliciar-me à hora que eu desejasse. Assim como uma geleira com bebidas à consignação… para o caso de eu ter sede durante a noite.

De Inhambane até Inharrime percorrera 93Kms em 4h39m, contando com 18 minutos de paragens “técnicas”.

Contava neste momento com 160 dias e 7.730Kms percorridos desde a minha saída de Luanda,

Mapa

A próxima etapa seria até Chideguele, a cerca de 110Kms do local onde me encontrava e a 360Kms de Maputo.

 

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Moçambique Fase III (Tofo – Inhambane)

 

Havia concedido um par de dias do meu calendário para conhecer o Tofo e para poder desfrutar de alguns momentos de descontracção em frente ao Oceano Índico.

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Da janela do pequeno quarto onde dormira, podia observar que o Sol já estava a meia-altura. Decidi saltar da cama e apressar-me para ir passear os meus pés na areia da praia.

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Na pequena passeata pela praia pude observar os homens da pesca a regressarem nas suas pequenas e coloridas embarcações, com o pescado do dia. Numa curta conversa com um deles pude constatar que a maioria dos seus produtos era destinada a estrangeiros que passavam as suas férias no Tofo, ou então aos estabelecimentos de restauração existentes um pouco por toda a parte. Pouco seria o pescado com destino a populações do interior ou mesmo para a população local em geral.

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De seguida atrevi-me a subir a pequena falésia do lado Sul, onde algures estariam 2 marcos da história de Moçambique.

Após alguns minutos a caminhar na areia escaldante do topo da falésia, eis que avisto o primeiro marco.

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Um monumento alusivo à libertação dos escravos, onde no cimo de um grande pedestal havia em braço com uma corrente partida, símbolo dessa mesma libertação.

Alguns metros mais à frente encontrei o sinal alusivo ao segundo marco que procurava, o chamado “Buraco dos Assassinatos”.

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Por um estreito trilho entre pequenos arbustos cheguei ao dito “buraco”.

DSC01802Uma fenda natural na rocha da falésia onde, segundo diziam os locais, eram realizados os fuzilamentos durante a Guerra Civil.

 

Cheguei bem perto do buraco, com o intuito de aperceber-me da sua profundidade e talvez conseguir ver o seu fundo. No entanto a alguns metros abaixo do nível do solo, a luz solar já não iluminava as paredes da fenda e a escuridão tomava conta do lugar. A única coisa perceptível era o barulho das ondas, que ecoava pela fenda acima fazendo parecer que o mar estava já ali à distância de um braço.

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Deixei-me estar por alguns minutos a contemplar o mar, a paisagem envolvente e o sossego que esta conjuntura me proporcionava.

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Pouco depois regressei à povoação e ao “agitado” mercado local que se situava à entrada da praia.

Proliferavam as bancas de venda de artesanato local. Exércitos de estátuas e estatuetas de todos os feitios possíveis e imaginários, povoavam o chão e as bancadas de cada barraca.

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Ao fundo de um dos corredores, as barracas de venda de telas pintadas à mão surtiam um simpático colorido, às escuras galerias do mercado.

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Apreciar calmamente qualquer peça de arte era tarefa impossível. De todos os lados surgiam vendedores de tudo e mais alguma coisa com os seus “Good morning…”, “Buongiorno amico…”, “You buy… good material…”, “Hey… amico… amico…”.

Era rara a palavra que saia das suas bocas em Língua Portuguesa.

Eu era um estrangeiro em Moçambique (apesar de me sentir em casa), no entanto nunca me sentira tão “estrangeiro” como no Tofo, onde parecia ser eu o único a falar português.

Fazer ver os vários vendedores que me cercavam, de que eu não iria comprar nada de nada, era uma tarefa complicada. Parecia que lhes custava crer que um estrangeiro no meio do mercado, iria sair dali de mãos a abanar, sem gastar um único Dólar ou Metical.

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Mais difícil ainda, era falarem comigo em Português, algo que me causava uma ligeira azia. Acabei por concluir (nem que fosse para satisfação própria) que ou os vendedores não eram Moçambicanos ou então queriam demonstrar que falavam outras línguas além do Português.

Estas pequenas surpresas apenas vinham confirmar as suspeitas que a minha mente criara no dia anterior.

O Tofo, apesar de tudo de bom e de bonito que tinha, não era nada daquilo que eu estava à espera. Assim, o Tofo, acabava por revelar-se em certa parte, como uma desilusão floreada onde abundava o Turismo propriamente dito.

A vila era principalmente ocupada por jovens Sul-Africanos que vinham à procura de ondas para a prática de desportos náuticos, ou para simplesmente passarem uns bons momentos entre amigos.

Os jovens locais viviam atrelados aos turistas, carregando nos seus braços todo o tipo de peças artesanais na expectativa que estas pudessem ter algum interesse para aquele que simplesmente veio ao Tofo para descansar.

Facilmente cansei-me desta realidade, pois não era a que procurava quando decidi parar no Tofo. Talvez efeitos do sindroma de encontrar-me nas últimas etapas da minha viagem, ou talvez não, decidi recolher ao meu pequeno palheiro para planeamento das próximas etapas e rapidamente zarpar do Tofo.

Do meu roteiro para a região de Inhambane, estava previsto a visita a várias praias ditas famosas. Contudo receava que fosse encontrar a mesma realidade do Tofo, ou seja povoações completamente orientadas para o turismo de estrangeiros de situação económico-financeira saudável. Eu procurava um Moçambique mais “puro”. Além que me arriscaria a apanhar muitas estradas destinadas a veículos 4x4, obrigando-me a subir e descer dunas arrastando a bicicleta pela areia solta.

Após uns largos minutos a olhar para o mapa de Moçambique e a calcular quilómetros e datas, acabaria por optar em regressar a Inhambane para depois seguir para Sul em direcção a Xai-Xai.

A partida do Tofo, dar-se-ia na manhã seguinte pelas 10h00.

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Voltei a percorrer a estreita estrada que me levaria de regresso à Capital da Província, a pouco mais de 25Kms do Tofo. O muito vento que soprava em todas as direcções voltava a não me afectar. Nem física nem psicologicamente. Afinal de contas tinha o dia todo para chegar a Inhambene e certamente que a curta distância a percorrer não iria ocupar-me por mais de 2 horas do meu dia.

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Entrei em Inhambane às 11h15m. A cidade estava calma. Ainda mais calma que há uns dias atrás aquando da minha primeira estadia em Inhambane.

Antes de me dirigir para a pensão do Mário (a Residêncial Olinda) aproveitei para percorrer novamente as ruas da cidade. Haviam-me informado que algures num terreno semi-abandonado, estavam dois “vestígios” do passado da região, entregues ao Deus Dará.

Com algumas perguntas às gentes locais, consegui descortinar esse tal terreno situado bem no centro de Inhambane e bem perto de outros edifícios governamentais.

Assim que cheguei às traseiras do terreno encontrei a estátua do Vasco da Gama. Aquele que pela primeira vez chamou de “Terra de Boa Gente” a Inhambane.

Nunca consegui perceber bem qual o verdadeiro valor patrimonial e a idade da estátua.DSCF8555 Uns diziam que o monumento tinha séculos e datava do tempo dos “Descobrimentos”. Outros diziam que a estátua era “relativamente” recente e que “alguém a tinha colocado ali até terem um lugar melhor para a colocar”. Fosse como fosse, toda a gente conhecia a estátua do descobridor Português, pelo qual eu deduzi que apesar de estar em regime de semi-abandono, esta deveria ter algum valor e significado tanto para a cidade como para a região.

Um pouco mais à frente encontrava-se o segundo caso que eu procurava.

Este, ligeiramente em piores condições que a estátua do “Vasco da Gama”.

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Tratava-se dos restos do primeiro carro da cidade de Inhambane. Pouco mais consegui apurar sobre a pobre viatura a não ser que estaria ali “…à espera de melhores dias”.

De volta à Residencial Olinda tive a oportunidade de, uma vez mais, conversar com o Mário que me deu algumas dicas sobre onde ficar ao longo das próximas etapas até Xai-Xai. Ficava assim estabelecido que a distância até Xai-Xai seria repartida em 3 etapas. A primeira seria de uns 90Kms até Inharrime, seguidos de mais 130Kms até Chideguele e por último outros 95Kms até Xai-Xai.

Uma vez em Xai-Xai voltaria a planear a minha rota com destino final em Maputo.

A proximidade ao final da minha viagem era notório em cada segundo que dedicava a olhar para o mapa de Moçambique.

Com os olhos percorria o traçado do meu mapa mas em sentido inverso, enquanto a minha mente vivia cada momento já vivido tal como se tivesse ocorrido há 5 minutos atrás.

Com um abanar de cabeça, acordava para a realidade e voltava a concentrar-me nas etapas futuras e na manutenção da bicicleta que continuava com sérios sintomas de cansaço.

Apesar de poucos, os 570Kms até Maputo ainda poderiam proporcionar-me muitos momentos de aventura, satisfação, prazer e realização. Aguardava ansioso pelo que as últimas etapas tinham reservado para mim… esperando assim pelo amanhã, com a certeza de mais prazeres a cada pedalada realizada.

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