Moçambique Fase III (Inhambane – Tofo)

 

Acordei cedo, no quarto da Residencial Olinda.

Durante a noite, matutara por breves minutos sobre o plano para os próximos dias. Encontrava-me numa das províncias mais famosas de Moçambique, no que respeita a turismo e praias, o que me despertava um certo interesse em passar um dia em cada uma delas.

No entanto, das conversas havidas na noite anterior com o Mário e com o Toni, ficara a saber que a maioria das praias só tinha acesso por estradas de areia e que seria necessário um veículo 4x4 para chegar até elas.

Devido ao fastio que eu ainda possuía a estradas de areia (originado pelas etapas entre Nangweshi e Sesheke, na Zâmbia), confinei-me em conhecer a cidade de Inhambane e posteriormente passar um par de dias no Tofo.

Depois de tomado o pequeno-almoço, deixei a Residencial caminhando em direcção ao Pontão de cimento, por onde entrara em Inhambane na noite anterior.

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Uma vez no final do Pontão, pude avistar com clareza a cidade de Maxixe, do outro lado da baia.

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Numa rotação de 180º em torno dos meus calcanhares, distingui no azul do céu a torre da Catedral de Inhambane.

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No meu lado esquerdo e no meu lado direito, estava o “antes” e o “depois” de uma actividade relacionada com o mar.

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De seguida, percorri as pacatas ruas de Inhambane em direcção à catedral.

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Muito próximo desta, alguns velhos edifícios aguardavam a sua vez de serem recuperados, enquanto as raízes das árvores rasgavam as suas paredes e telhados, à procura de alimento.

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Inhambane, mostrava-se como uma cidade muito calma, bastante limpa e ordenada. Talvez a cidade mais bonita que vira em toda a minha viagem.

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Muitos edifícios recuperados, mantendo a arquitectura original e de jardins arranjados, Inhambane, “Terra de Boa Gente”, não parava de me surpreender pela positiva.

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Banhada por água a Este e a Norte, era possível ver um pouco por toda a parte, barcaças (ou restos delas), que demonstravam a importância do mar para as actividades da região.

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Depois do reconhecimento geral da cidade, dediquei uns minutos à gulosice…

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… e ao meu aspecto visual, com uma ida ao barbeiro da rua.

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Estava na altura de seguir o plano traçado durante a manhã.

De regresso à Pensão Olinda, iniciei a preparação da bicicleta de modo a arrancar para o Tofo na manhã seguinte, pois acabara de descobrir que o pneu da frente furara sozinho durante a tarde... vá-se lá saber porquê!

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A etapa até ao Tofo, seria a etapa mais curta de todo o trajecto em território Moçambicano. Uns meros 26Kms.

Não tinha pressas para deixar Inhambane nem para chegar ao Tofo. De certa maneira, podia dizer que tinha o dia todo para chegar ao destino, apesar de não ser o pretendido.

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Apesar de ainda encontrar-me abrigado na Residencial Olinda, consegui aperceber-me do forte vendaval que rodava por cima dos muros da pensão. Contudo o vento não era preocupação, pois dispunha de bastante tempo para chegar à praia do Tofo.

 

 

 

Deixei a pensão à 9h36m. Percorri a avenida que me levava até ao edifício dos caminhos-de-ferro, sob olhar atento de alguns curiosos. Em seguida virei para a estrada estreita que me levaria até à praia.

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Pedalava quilómetro após quilómetro com todas as calmas do mundo, apenas controlando o esforço exercido nos pedais, de modo a poupar a corrente e os carretos da bicicleta.

Volta e meia, chocava de frente com algumas rajadas de vento que quase me atiravam para fora da estrada. Mas ao contrário de todas as etapas anteriores, onde algo semelhante acontecia, eu não me importava com isso. Afinal de contas, seriam apenas por duas dezenas de quilómetros.

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De ambos os lados, surgiam inúmeros coqueiros apenas vergados pela acção do vento. A paisagem havia-se alterado indubitavelmente. Deixava de ser mato rasteiro para passar a ser areal e palmal.

 

 

 

 

A poucos quilómetros do Tofo, junto a um entroncamento, passei por um pequeno grupo de barracas feitas de chapas e caniço.

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Na bifurcação da estrada, 3 rapazes estavam sentados à sombra de um placard publicitário.

À minha passagem, nada disseram, nem sequer olharam para mim. Poucos segundos depois de eu ter passado, um deles grita para mim:

- Hey! You! Give me Money! – Fingi não ouvir, pois estava com os auscultadores enterrados nos ouvidos.

No entanto ainda senti os pelos dos braços a querem levantar.

Não contente com o meu desprezo, o inconveniente indivíduo repetiu mais duas vezes a frase, acompanhado de vários assobios e “Hey’s”.

A música do meu iPod, não fora suficiente para abafar tais descortesias.

Os pelos dos braços ergueram-se de imediato, o cérebro cozeu de revolta, os olhos cegaram e as pernas perderam a vontade de pedalar.

Parei. Olhei para trás e fiz-lhe sinal com o queixo como quem pergunta “o que quer?”.

O abusado repetiu a frase em tom autoritário, desta vez com a mão estendida para a frente.

Dei meia-volta à bicicleta e fui ao encontro dos rapazes. Perguntei-lhes simpaticamente se falam português. Responderam que sim.

De uma maneira assertiva (e utilizando vários vocábulos do nosso vasto dicionário) tentei fazer-lhes ver o ridículo dos seus “pedidos”, além das boas maneiras a adoptar para se conseguir algo, seja de quem for.

No final da “missa”, todos concordaram comigo (no meio de várias risadas) e quase que me pediram desculpa.

Parti em direcção ao Tofo…

Eles… continuaram sentados à sombra do placard publicitário como se nada tivesse acontecido… talvez à espera do próximo “estrangeiro”… e na expectativa que este não seja do mesmo espécime que eu.

Pouco depois, chegava ao famoso Tofo.

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Eram as 11h00,bastante cedo para o que era habitual nas minhas etapas. Dei uma volta pela povoação para poucos minutos depois concluir que o Tofo não era nada daquilo que eu imaginara.

À primeira vista, não era “mau” nem feio. Era simplesmente o oposto do que a minha mente havia idealizado para uma povoação, com tamanha reputação nos meios turísticos.

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Na verdade, a razão da “surpresa” residia apenas no centro da minha consciência.

Por dias e dias a fio, ouvia falar do Tofo. Devido às horas e aos quilómetros, passados a pedalar sozinho, a minha mente começou a idealizar cenários de acordo com as descrições ouvidas e segundo os padrões que eu queria que fosse o Tofo. Contudo, assim que explorei um pouco mais a pequena povoação, apercebi-me que a realidade era completamente diferente à dos quadros pintados pelo meu imaginário.

Antes de tomar conclusões precipitadas, decidi ir procurar alojamento para passar a noite. Talvez por ser época baixa, encontrei o parque de campismo fechado.

Ao longo da costa, havia inúmeras pensões que ofereciam boas condições para os seus clientes mas a preços bastante acima do meu orçamento.

Havia também, pensões com condições bastante mais simples. Com quartos ou dormitórios em caniço e a preços ligeiramente mais acessíveis, mas não deixavam de estar inflaccionados.

No entanto, eu não pretendia nem uma coisa nem outra. Afinal de contas, a minha cabeça dura ainda procurava a pensão pitoresca que o meu cérebro imaginara durante dias seguidos.

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Aos poucos apercebia-me que o Tofo não era mais que uma colónia de férias de (maioritariamente) Sul-Africanos, e não uma vila histórica com fortes tradições piscatórias (apesar de as haver).

Aproximavam-se as 12h00 e o meu estômago já começava a acusar vontade de comer. Dirigi-me ao restaurante da Aida (aconselhado pelo Toni e pelo Mário), que se situava mesmo no centro da Vila e de nome “A Concha”.

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Já no restaurante, perdi a cabeça e deliciei-me com um prato de camarões mesmo à turista. Fiz amizade com a Aida, que me deu umas dicas sobre onde permanecer durante a noite e de seguida, pus-me em marcha para arranjar um lugar para dormir.

Dei mais umas voltas pela Vila, percorrendo as suas estradas de areia, próprias para veículos 4x4 e acabei à porta da “Fatima’s”, uma pensão para backpackers e outros viajantes.

Era a pensão com os preços mais acessíveis que eu encontrara no Tofo, no entanto não podia deixar de concluir, que a opinião que eu vinha construindo acerca do alojamento para “backpackers”… batia certo.

Bastavam 4 estacas ao alto, um telhado de capim e duas fileiras de caniço nas paredes, para ter um alojamento para backpackers. Quanto a lavabos e balneários, bastavam 2 compartimentos comuns. Um com um símbolo masculino e o outro com um símbolo feminino. Seguidamente era só pintar numa placa a palavra “Backpackers” e coloca-la na entrada… depois… os hóspedes acabavam por aparecer, vindos de todos os cantos do mundo.

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Punha-me a pensar e a comparar conceitos de alojamento. Na minha viagem, já havia ficado alojado em bons quartos com A/C, casa de banho privativa com chuveiro com água quente e bem mais baratos que um barraco de caniço e telhado de capim. No entanto, estes não tinham o letreiro de “Backpackers”, mas sim de “Pensão”, de “Estalagem”, ou outro qualquer do género.

No conceito de alojamento para Backpackers, parecia que em termos de condições, “servia tudo”… O que para mim até era aceitável… á excepção da enorme desproporção entre Preço e Qualidade verificado neste tipo de alojamento, apenas por ter um letreiro com a palavra “Backpackers” inscrito na porta.

Deixei de lado os meus pareceres existenciais e conformei-me com o (preço) meu alojamento.

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Estava na altura de aproveitar os últimos raios de Sol e dar uma caminhada pela praia do Tofo.

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No dia seguinte, teria a oportunidade para confirmar as minhas primeiras impressões sobre o Tofo, planear as restantes etapas da viagem e por fim regressar a Inhambane…

Moçambique Fase III (Massinga – Inhambane)

 

Acordei para o meu terceiro dia de viagem depois dos dias de baixa, devido à malária.

Depois do pequeno-almoço, quando encontrava-me preparado para partir, reparei que a bicicleta tinha um raio da roda traseira partido.

Começava bem o dia… “… agora os raios da bicicleta, partem-se sozinhos durante a noite…”.

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Agradeci a hospitalidade e despedi-me do pessoal do Estaleiro da Mota-Engil de Massinga. Estava na altura de iniciar mais uma etapa e saber o que o dia havia reservado para mim.

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Estava a sentir-me bem e com forças para pedalar os 100Kms até Maxixe. Na realidade, o destino final da etapa não seria Maxixe mas sim Inhambane.

Uma vez chegado a Maxixe, eu planeava apanhar o ferryboat para a Capital de Província, Inhambane. Pelas minhas contas, esperava chegar a Maxixe antes das 14h00, o que daria tempo para conhecer a cidade durante um par de horas e posteriormente atravessar a baía para Inhambane, onde procuraria lugar para pernoitar.

A etapa começou por ser igual às últimas etapas percorridas. Pedalada atrás de pedala, uma recta enorme atrás de outra recta ainda mais longa, sem variações de relevo nem de cenário.

Seguia concentrado no balanço da viagem. Faltam poucos quilómetros até Maputo, que facilmente seriam percorridos em 5 dias de viagem. No entanto a minha intenção não era chegar à Capital Moçambicana a “correr”. Fazia intento de conhecer tudo o que pudesse até chegar ao destino final da viagem.

O dia começava a aquecer à medida que o Sol se erguia à minha esquerda. Punha assim a hipótese de para na vila de Massinga para hidratar o corpo.

A poucos quilómetros de Massinga, comecei a sentir a bicicleta a travar sozinha.

Travava cada vez mais, sempre que as rodas completavam 360º e em poucos metros de estrada, a bicicleta ficou completamente imobilizada.

Desci da bicicleta com o sindroma da roda traseira a iniciar o processo de ebulição da minha paciência. Olhei para o lado esquerdo da roda e não encontrei nada de anormal.

Em seguida verifiquei o lado direito da mesma roda e deparo-me com um cenário há muito esperado, mas que (por conforto mental) nunca acreditara que fosse acontecer.

O aro traseiro esgaçara completamente!

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O primeiro pensamento que invadiu a minha consciência foi que estaria ali terminada a minha viagem entre Luanda e Maputo em bicicleta. Os restantes quilómetros até Maputo seriam percorridos em cima de uma carrinha qualquer, juntamente com sacos de carvão, milho, cabras galinhas e afins.

Contudo, este pensamento não chegou a alojar-se no meu cérebro por mais que uns meros milissegundos. Não estava ali me conformar com uma desistência do pé para a mão.

Encontrava-se a 2Kms de Massinga e também a meia-dúzia de centenas de quilómetros de Maputo. Começava a ser “normal” avistar bicicletas com aros semelhantes aos meus (32 raios) nas mãos de cidadãos locais.

Com um pouco de sorte encontraria um aro usado na vila. A questão era chegar até Massinga.

Soltei completamente os travões traseiros para que a roda pudesse girar livremente. Pedalei os restantes quilómetros, despejando o peso do meu corpo sobre a roda dianteira, de modo a evitar esforçar o aro traseiro.

Cheguei a Massinga pouco depois. Entrei na vila com todos os meus sentidos em alerta à procura de uma bicicleta com um aro compatível.

Poucos minutos depois, a presa estava localizada. Preparava agora a estratégia de ataque.

A bicicleta estava encostada do lado de fora de uma barraca de venda de recargas para telemóveis. Entrei na barraca e perguntei quem era o dono da bicicleta lá fora.

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Um jovem rapaz, do outro lado do balcão, levantou o braço. Chamei-o à parte, já do lado de fora do pequeno estabelecimento. Em frente à sua bicicleta, contei-lhe a minha história e mostrei-lhe o meu aro aberto em duas partes.

Estavam abertas as negociações…

(A grande vantagem de África, tudo se vende… tudo tem um preço… nada se deita fora…)

Poucos minutos depois, estava acordado o preço do aro da bicicleta do jovem…. E logo de seguida consegui um desconto por dar o meu aro velho em troca! Afinal de contas, não deixava de ter alguns gramas de alumínio.

Estava safo. Agora era só uma questão de trocar os aros o mais rápido possível, e não perder mais tempo de modo a conseguir chegar a Maxixe a horas de apanhar o ferry que me levaria a Inhambane.

Para conseguir esta proeza contratei um “mecânico” para me ajudar a fazer a troca de aros, raios, cubos e carretos entre as rodas, sempre com a ajuda do vendedor.

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Teríamos que desmontar por completo as duas rodas e montar o meu cubo (eixo da roda) com os meus carretos, no aro recentemente adquirido utilizando os raios do mesmo.

Era uma operação simples de se realizar… não fosse o facto de eu estar numa “oficina” sem as condições mínimas de trabalho, para centrar e calibrar a roda.

Pouco depois do início da operação de permuta de aros, descobrimos que o cubo e os carretos da roda comprada, estavam soldados um ao outro(!!!), impossibilitando o desmonte do aro.

Para conseguirmos tirar os carretos do cubo necessitaríamos de contratar um subempreiteiro ao já nosso subcontratado. O vendedor do aro tratou desta tarefa e montado numa motoreta-táxi, desapareceu no meio das barracas com a minha roda “nova”.

Pouco mais de uma hora mais tarde, voltou com os carretos desmontados. “Não há nada que um bom martelo não faça”-referiu este.

Impasse resolvido, iniciámos a montagem da minha roda nova e consequente afinação dos raios.

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O tempo passava rápido. Os dígitos das horas avançaram 3 posições desde que parara com problemas na bicicleta. A hipótese de chegar a Inhambane parecia agora cada vez mais longínqua. Eram as 14h30 e nas melhores das hipóteses chegaria a Maxixe às 17h00 para depois apanhar o ferry para Inhambane.

Olhava com preocupação para o trabalho realizado pelo meu “contratado”, na tentativa de afinar/desafinar os raios da roda. A minha paciência começava a atingir os limites, pois o indivíduo deu-me a roda como pronta várias vezes, mas sempre com formas geométricas muito diferentes da forma de uma circunferência.

Este afinava a roda a olho e com a ajuda da sua desenvolvida unha do dedo polegar, sem que nunca se desse ao trabalho de dar os toques finais com o aro já montado na bicicleta. Evidentemente que cada vez que eu tentava montar o aro, este ou parecia um ovo ou ficava a raspar num dos braços do quadro.

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Numa última tentativa, deixei-o fazer o seu trabalho até ao fim e provar-me o que realmente sabia. Montei uma vez mais a roda na bicicleta e mostrei-lhe o trabalho feito. A roda estava completamente pendente para o lado esquerdo, de tal maneira que ficava a raspar no calço do travão.

- É o travão que está mal! – Respondeu o técnico.

Desisti… peguei na chave de apertar raios e afinei eu próprio a roda. Algo que já deveria ter feito há muito tempo.

Dei um pequeno ajuste em todos os raios do lado direito, para puxar o aro para o centro. Testei… ainda não. Libertei ligeiramente os raios do lado esquerdo. Testei… estava quase lá.

O meu maior problema residia agora em fazer com que o aro ficasse redondo e não oval, tal como o havia deixado o “artista” da barraca, ao qual chamava de oficina.

Finalmente e já contando com 4h30m de paragem, consegui colocar a bicicleta operacional.

Saldei as minhas contas com o vendedor do aro e o subcontratado, e parti imediatamente para Maxixe de modo a evitar chegar depois de escurecer.

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Contudo, nuns cálculos muito rápidas, viria a aperceber-me que estaria condenado a chegar a Maxixe por volta das 18h00, ou seja pedalaria cerca de 45 minutos no breu da noite, além de perder a oportunidade de apanhar o ferry para Inhambane.

Reiniciei a etapa, impondo nos pedais o máximo de ritmo que conseguia de maneira a tentar percorrer os 67Kms remanescentes nas 3h30m previstas.

Nas ligeiras descidas que a via me proporcionava, eu aproveitava para aumentar consideravelmente a minha velocidade. Como consequência da alta velocidade, o efeito de “descalibração” da minha roda traseira fazia-se sentir com maior intensidade, ao ponto de eu confundir se ia montado numa bicicleta ou em cima de um cavalo.

A vibração na roda traseira era de tal ordem, que as minhas nádegas chegavam a descolar-se do selim alguns 15mm.

A paisagem parecia que mudara da noite para o dia. Avistava agora centenas de coqueiros e palmeiras em ambos os lados da estrada, dando um aspecto mais “tropical” ao cenário circundante.

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O relevo também mudara, mas ligeiramente. Apareciam agora longas subidas e descidas que desgastavam as minhas pernas, as quais já vinham a acusar algum cansaço. De todas as formas, já passavam 8 horas desde que tomara o meu ligeiro pequeno-almoço.

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Estaria na altura de procurar algumas bananas para recuperação de forças e se possível, bem regadas por uma Coca-Cola bem gelada.

Tal viria a acontecer alguns quilómetros mais tarde na povoação de Murrumbene, onde saciei a minha sede e acomodei 4 bananas no meu estômago.

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Eram as 16h38 e os 25Kms restantes até ao destino, faziam-me alterar os meus planos para dormir em Maxixe, em vez de Inhambane.

Iria chegar de noite a Maxixe o que me obrigaria a apanhar o ferry para Inhambane apenas na manhã seguinte.

Os últimos 20kms até Maxixe, estavam a ser uma tortura para as minhas pernas. Estas estavam complemente desligadas, tal como se alguém tivesse cortado a energia ao desligar um interruptor.

A bicicleta parecia tão pesada que fez-me parar por 2 vezes para que eu verificasse se havia alguma coisa a prender o movimento das rodas. Nunca encontrei nada de anormal, o que me levaria a crer que eu ainda não havia recuperado totalmente da malária que sofrera dias antes.

O Sol desapareceu rápido por detrás das árvores, deixando apenas uma fraca claridade nos céus que ainda servia para iluminar o meu caminho.

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Aproveitei para engolir as últimas 3 bananas de uma só vez, numa tentativa desesperada de repor alguma energia ao organismo… no entanto parecia que estas não tinham efeito nenhum contra o cansaço das minhas pernas.

Optei por abandonar a mudança “tripla” para passar para a “primeira” engrenagem de modo a poupar o esforço despendido. A minha velocidade média baixara a barreira dos 14Kms/h tornando a cidade de Maxixe cada vez mais distante.

Era já noite cerrada quando avistei ao longe, as luzes da cidade de Maxixe. Os restantes 4Kms pareciam infindáveis, que aliados cansaço e ao facto de eu pedalar no breu da noite tornavam esta fase, num teste digno à minha capacidade em me desviar dos vários vultos que caminhavam ao longo da estrada, sem qualquer tipo de adorno luminoso e/ou reflector.

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Cheguei a Maxixe às 18h15.

Dirigi-me directamente para o primeiro edifício com aspecto de pensão. Situava-se por detrás de umas bombas de gasolina na EN1, mesmo no centro de Maxixe.

No rés-do-chão, um salão amplo com aspecto de restaurante, indicava-me onde eu iria saciar a minha fome. No primeiro andar, meia-dúzia de quartos ao longo do corredor faziam o “cardápio” da pensão.

Pedi para ver os quartos livres, ao rapaz que estava responsável pelos mesmos, ou seja o recepcionista.

Num dos quartos que “inspeccionávamos”, resolvi abrir a janela e ver as vistas nocturnas. Ao longe pude ver o porto e um ferry atracado com as suas luzinhas acesas.

Perguntei ao recepcionista da pensão se o ferry ainda fazia viagens para Inhambane, mesmo aquela hora da noite.

Este não teve tempo para acabar de dizer “Faz sim…”, já eu estava montado na bicicleta a pedalar em direcção ao porto.

À chegada do final do pontão, mal tive tempo para travar e evitar estatelar as bentas no casco de ferry.

DSCF8444Consegui lugar no barco mesmo no último minuto. Pedi ajuda aos marujos para colocar a bicicleta em cima do ferry e juntei-me aos restantes passageiros.

 

 

Voltava assim ao meu plano inicial de pernoitar em Inhambane.

À chegada a cidade de Inahmbane, Capital da Província com o mesmo nome, voltei a necessitar de ajuda dos marujos para retirar a bicicleta do ferry. Agradeci e despedi-me dos meus colegas de última hora.

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Percorri o pontão de cimento e pouco depois encontrava-me com os pés completamente assentes em Inhambane. Efectuei uma curta volta pela cidade em missão de reconhecimento (modo nocturno) e acabei na porta da Pensão Olinda (também conhecida por África tropical).

Entrei para um pátio longo mas estreito, que levava a um balcão de bar. Apresentei-me e pedi um quarto.

Pouco depois já tinha um quarto para pernoitar e um grupo de amigos para jantar e passar o serão.

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A etapa do dia contara com 97Kms pedalados, que demoraram 10h03m a serem percorridos (contanto com 4h58m de paragens técnicas).

Encontrava-me mais próximo de Maputo que nunca (tal como acontecia todos os dias) e os pouco mais de 500Kms ainda por pedalar, faziam-me meditar sobre os 7600Kms já percorridos e tentar aproveitar os últimos, tal como se fossem os primeiros.

Agora em Inhambane, iria dedicar uns dias para conhecer a cidade e as praias em redor, nomeadamente o Tofo. Só depois seguiria para Sul, rumo à Capital do País e ao fim da minha Viagem.