Moçambique Fase III (Save – Inhassoro)

 

Após uma noite a tremer de frio, eis que acordo encharcado em suor e enterrado num colchão que mais parecia um moliceiro.

Na posição em que me encontrava, apenas consegui ver as bordas do colchão e o telhado em capim do meu quarto, tal era a curvatura côncava que o meu leito apresentava.

A custo, tentei levantar-me para avaliar a condição física do meu corpo, mas a única solução que encontrei para sair da casca onde estava enterrado, seria a de rebolar até uma das laterais do colchão para de seguida colocar os pés no chão e por fim, erguer-me.

Nos primeiros movimentos matinais, concluí que eu estava praticamente a 100% e que das febres e dores da noite anterior, apenas restavam uns ínfimos vestígios. Dava assim por quase certo, que eu não estaria com malária e que a má disposição e dores musculares deviam-se simplesmente, ao cansaço.

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Após um pequeno-almoço elaborado com aquilo que se podia arranjar, decidi dedicar-me à substituição de um raio que estava partido. Era uma reparação simples e não muito morosa, pois não era obrigado a desmontar o pneu por completo.

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Faltavam 10 minutos para as 9h00 quando dei início a mais uma etapa da minha viagem. Desta vez até Inhassoro, uma povoação à beira-mar a cerca de 87Kms de Save. Poderia considerar a etapa até Inhassoro, como uma etapa curta, quando comparada com outras etapas anteriores. No entanto (e uma vez mais) os (im)previstos é que iriam ditar o tempo que eu demoraria entre as duas povoações.

Nas primeiras pedaladas da manhã, depressa cheguei a uma conclusão e a uma constatação:

Em primeiro lugar, as minhas pernas e articulações ainda se ressentiam do dia anterior, obrigando-me a recuar quanto à minha conclusão acerca da malária.

Em segundo, constatei que o vento estava forte… de Este, mas forte… e segundo a minha sina, este iria voltar-se contra mim mais cedo ou mais tarde.

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Pedalava seguindo longas rectas e sem variações paisagísticas. A monotonia da etapa era compensada pelo ânimo em chegar a Inhassoro, local onde planeava passar 1 ou 2 dias para descansar, de preferência com os pés mergulhados nas águas quentes do Índico.

A viagem prosseguia sem altos nem baixos, sem curvas nem contra-curvas, sem aldeias nem gentes… simplesmente após uma longa recta… vinha outra recta longa…

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A estrada estava em piores condições que os quilómetros anteriormente percorridos, o que mantinha-me acordado para desviar a bicicleta dos vários buracos que se cruzavam comigo.

Decorriam 2h20 de uma etapa insonsa, quando surge um barulho estranho na minha roda traseira para quebrar a monotonia.

Por debaixo da minha axila esquerda, mirei o aro traseiro para tentar identificar a origem o ruído, que mantinha uma frequência proporcional à velocidade linear da bicicleta.

Assim que vi a causa do barulho, parei imediatamente antes que ficasse sem mais uma câmara-de-ar.

O meu pneu chinês, comprado no Malawi meses antes, resolvera ceder deixando a câmara-de-ar à beira de um iminente estouro.

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No meio do inconveniente, dei por mim contente por saber que o problema na roda traseira não era nem um furo, nem um raio partido, tal era a minha fobia com estes 2 tipos de azares.

Ao menos este era um problema diferente dos outros e que nunca havia acontecido antes. Além que tinha comigo um pneu suplente pelo que este percalço não me chegava a causar dilatação dos vasos sanguíneos.

Desmontei o pneu nas calmas e substitui pelo pneu novo que trazia debaixo da tenda. Entre alguns segundos de tensão, que ocorriam sempre que arrancava uma das crostas ainda existentes nos nós dos meus dedos, consegui montar o pneu e colocar a bicicleta operacional para andar.

Apenas quando já me encontrava a arrumar a ferramenta, é que reparei numas letrinhas inscritas no pneu que indicavam o sentido de rotação do mesmo. E neste preciso momento as setinhas estavam apontadas para trás, o que quereria dizer que eu tinha montado o pneu ao contrário!

Contei até 10… idolatrei-me com alguns adjectivos do nosso vasto vocabulário, de seguida respirei fundo e lancei (mais uma vez) mãos à obra. Desmonta pneu, tira câmara-de-ar, tira protecção da câmara-de-ar, roda pneu para o sentido correcto, monta câmara-de-ar com a protecção e monta pneu desta vês com as setinhas a apontar para a frente.

No final da operação, já não havia crostas nas minhas mãos. Apenas crateras em carne vida com tons de amarelado, que teimavam em não cicatrizar. Era assim desde a chegada à Gorongosa, quando fui mordido por uns esvoaçantes esfomeados e de ferrões bem afiados.

Com a brincadeira do pneu, perdera 45 minutos do meu dia. Nada que atrapalhasse o resto da etapa, caso não houvessem mais surpresas indesejáveis.

Segui estrada fora por rectas e mais rectas em direcção a Macovane, povoação onde planeava parar para comer alguma coisa.

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Alguns quilómetros mais tarde, acabei por chegar à desejava povoação. No entanto a única coisa que encontrei foi uma placa com o nome de Macovane e um punhado de crianças a brincar na estrada.

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Decidi então, pedalar até ao cruzamento com a estrada para Inhassoro na expectativa de encontrar algum barraco que vendesse algo comestível. Mas uma vez mais, as expectativas saíram furadas e tive que contentar-me com uma Coca-Cola comprada numa das lojas junto à estrada.

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Faltavam apenas 15Kms até Inhassoro, mas estes seriam os quilómetros mais penosos, uma vez que pedalava para Este. Exactamente em sentido contrário ao forte vento que se fazia sentir na região e que não me deixava passar dos exorbitantes 15Kms horários.

Pedalava agora numa estrada ainda mais estreita que o último troço da Estrada Nacional. Tão estreita que eu era quase obrigado a saltar para a berma, cada vez que um carro cruzava comigo.

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À medida que me aproximava de Inhassono, conseguia ver com cada vez mais clareza, o azul do mar. No entanto achei que algo de errado se passava com o mar, pois este não emanava o cheiro a maresia que eu esperava. Antes pelo contrário, as minhas narinas captavam o cheio normal a “ar”… ou seja nada.

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Entrei em Inhassoro às 14h20. Tinha tempo suficiente para circular pela povoação, antes de me dedicar à procura de local para pernoitar.

No final da estrada principal, segui a única estrada de alcatrão. Virei à direita (para Sul) e fui à descoberta de um local para saciar a minha fome.

Logo no início da via, parei numa padaria para comer 2 pães e beber qualquer coisa. Pouco depois segui a minha pesquisa sobre pensões para ficar durante a noite.

Inhassoro parecia-me bastante calmo e tranquilo. Pouco trânsito e pouco explorado turisticamente. No entanto, aos poucos fui-me apercebendo que aqui e ali havia várias pensões, a maior parte delas exploradas por estrangeiros e com preços proibitivos para a minha carteira.

Explorei várias hipóteses de alojamento, mas sem grande sucesso. Acabaram por sugerir-me a Casa Luna, uma pensão do outro lado da vila e que pertencia a um português. Aceitei a ideia com agrado, pois pelo menos na questão da comida, sabia que estava safo (segundo a regra de “onde há um português não falta nem vinho nem comida”). Restava-me saber o alojamento.

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À chegada à Casa Luna, deparei-me com um lugar paradisíaco no alto de uma falésia e com vista para o mar. Ainda pensei meia-duzia de vezes se valia a pena dirigir-me à recepção, pois um lugar como o que os meus olhos deslumbravam, não cabia certamente no meu orçamento. No entanto após algumas hesitações acabei por avançar e dirigir-me ao balcão.

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Alguns minutos de conversa, de exposição da minha viagem e dos respectivos condicionalismos financeiros, eis que chegámos a acordo quanto ao valor da pernoita. Afinal um dia não são dias, e estando eu na recta final do meu trajecto, podia bem oferecer a mim mesmo um par de dias num local tão bonito e tranquilo como o que a Casa Luna proporcionava. Aliás, as minhas pernas pediam pelo menos 2 dias de “papo para o ar”.

Fiquei alojado numa tenda tipo “militar”, montada sobre um estrado de madeira e com todas as condições no interior. Cama grande… casa de banho privativa… chuveiro com água quente…

Já não me lembrava de ter tanto “conforto” num só local.

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Do meu varandim conseguia ver a piscina, o mar e a Ilha de Bazaruto ao fundo como que a rasgar a linha do horizonte marcada pelo Oceano.

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Já instalado e de banho tomado, estava na hora de saciar a minha fome com um prato de peixe que me alegrava as vistas só de olhar para ele.

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De Save a Inhassoro pedalei 87Kms em 5h28m, incluindo 53 minutos de paragens “técnicas”.

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Moçambique Fase III (Muxungue – Save)

 

No colchão do quarto da Pensão Tubarão, dormi que nem um bebé. Levantei-me a custo ao mesmo tempo que no meu consciente pairava a curiosidade paradoxal de conhecer o que o dia havia reservado para mim.

Planeava chegar a Save, uma povoação na EN1 cerca de 110Kms de Muxungue. Uma distância facilmente percorrida entre 6 a 7 horas, se tudo corresse sem os habituais (im)previstos.

Simultaneamente, havia à nascença do dia uma certeza… esses (im)previstos iriam acontecer. A minha bicicleta encontrava-se nas “ruas da amargura” e era certo que se não fosse a roda traseira a dar-me problemas, então seria qualquer outra parte da bicicleta… proibindo-me de calcular com exactidão, uma hora estimada de chegada. Podia sim, considerar um intervalo entre 6 horas até 10 horas…

Preparei os meus pertences e coloquei-as nos alforges pela n-ésima vez. Já não precisava de ver o que arrumava e onde arrumava. O procedimento estava totalmente memorizado e automatizado. Por vezes dava por mim à procura disto ou daquilo, por cima da cama, entre lençóis, debaixo da cama, etc… mais tarde vinha a notar que já havia arrumado no seu local próprio, mesmo sem me lembrar que tinha-o colocado naquele local com todo o jeitinho do mundo, para que coubessem mais uma dezena de artefactos por cima, ao lado, atrás e à frente do objecto “sumido”.

Antes de sair do quarto, fiz uma pequena inspecção à roda traseira da minha bicicleta. Reparei que havia um raio partido! Testei o alinhamento da roda e decidi seguir viagem sem o dito raio substituído.

A razão para a decisão não se punha por razões de comodismo ou preguiça. Punha-se sim, por razões estatísticas:

- Para substituir o raio, eu teria que desmontar o pneu. E sempre que eu desmontava o pneu estava condenado a ter uma série de furos no lado interior da câmara-de-ar, tal e qual como vinha acontecendo no último milhar e meio de quilómetros.

Uma vez no restaurante da Pensão Tubarão, onde iria tomar o meu pequeno-almoço, decidi fazer uma pequena e breve prospecção de mercado.

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Em primeiro lugar dediquei-me aos géneros alimentares e ao reforço do stock de bananas, as quais iram alimentar-me durante as próximas horas.

Em segundo lugar, procurei por um aro que servisse na minha bicicleta. Por incrível que parecesse, encontrei várias bicicletas que tinham um aro traseiro compatível. Todas elas usadas e com o seu dono montado nelas.

Tentei negociar com alguns dos proprietários, a compra/troca do seu aro. Mas contrariamente às leis das economias, a “Lei da Oferta e da Procura” não se aplicava nesta região do globo.

Havia apenas 1 comprador, entre 3 a 5 potenciais vendedores. O problema veio quando estes fizeram uma associação monopolista e acordaram o preço de venda. Se algum vendedor cedesse à minha oferta e baixasse o preço, então estaria “à pega” com os outros 4.

A questão do cartel comercial não me afectava em grande medida. O que me tirava do sério era o facto de algumas mentes menos iluminadas, pedirem tanto dinheiro pela roda que nem eles próprios sabiam dizer o número em português correcto.

Perplexo com tanta ganância, olhava para os cabecilhas do cartel a discutirem com os seus sócios “minoritários”, com os primos, amigos e vizinhos que também se haviam juntado à festa… tudo para “sacar do branco” o máximo de dinheiro possível. A última oferta que consegui ouvir, quase que dava para ir a África do Sul comprar uma roda nova. Desiludido com tanta pobreza de espírito num só grupo de jovens, voltei para a pensão para tomar o meu pequeno-almoço, uma sopa de legumes e um prego no pão.

Faltavam 20 minutos para as 10h00 quando iniciei a viagem para Save. A manhã começara fresca, mas assim que o Sol se erguia no céu a temperatura galgava a escala dos termómetros.

O vento já se fazia sentir de alguma maneira, mas para grande alegria minha este não estava de frente.

Logo à saída de Muxungue, enquanto ainda estava nas primeiras pedalas do dia, algo voltou a recordar-me o quão perto eu estava de Maputo.

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Parecia que à distância de um palmo eu estaria no destino final da minha viagem, a Capital Moçambicana. Queria aproveitar ao máximo o tempo restante e traçar novos trajectos alternativos à monótona, fastidiosa e perigosa EN1. Queria percursos que me permitissem mergulhar no Moçambique profundo, tal como fizera na Província do Niassa e na Província de Cabo Delgado. No entanto o estado de saúde da minha bicicleta não permitia muitas aventuras. Manter-me em estrada asfaltada e sem grandes solavancos ou saltos era sem dúvida a melhor maneira de evitar ficar apeado no meio do mato com a roda traseira feita (literalmente) em dois.

Para me resgatar de uma hipnose de novos planos e muitos “e se’s…”, surgiam vários jovens vendedores de castanha de caju, que ao meu aproximar, corriam para as ramagens onde tinham os seus saquinhos pendurados. De seguida, acenavam e gritavam na expectativa de me venderem qualquer coisa.

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Os primeiros 20kms foram feitos de uma forma incrivelmente rápida. Talvez por efeito do vento, que estava ligeiramente a favor, ou por boa forma mental e física, eu estava a conseguir manter uma estonteante média de 27,5Kms/h.

Surpreso com tamanha performance, continuei a insistir com os pedais para cima e para baixo de modo a não baixar as médias.

Era a ganância de conseguir realizar a etapa mais veloz de toda a viagem, desde que saíra de Luanda.

Contudo, nada é eterno e o que é bom costuma acabar rápido.

 

O vento foi rodando sorrateiramente até ficar completamente de frente. Mesmo assim eu mantinha a insistência nos pedais aproveitando a energia que a sopa de legumes, ingerida ao pequeno-almoço, continuava a fornecer. Algo que desgastaria as minhas pernas prematuramente, obrigando-me a recorrer a mais um pacote de bolachas de coco.

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Ainda trazia migalhas das primeiras bolachas em redor da minha boca, quando ouço um raio a partir. Faltavam-me agora 2 raios na bicicleta…

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Poucos minutos depois partiu-se o terceiro raio… e sem eu ter tempo de gritar um grande “desabafo”, partiu-se o quarto raio, deixando a roda completamente desalinhada e obrigando-me a interromper a etapa.

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Parei junto a uma ponte metálica de uma só faixa, que substituía a ponte orginal.

Num controlado ataque de fúria, comprimi os maxilares um contra o outro de tal maneira, que os meus olhos quase que saltavam das órbitas.

Era assim a minha sina. Estava condenado a viver os últimos dias da minha viagem numa constante corda bamba.

Furos, raios partidos, aros estalados… tudo acontecia e tudo podia acontecer a qualquer momento.

A custo, aceitei a realidade. Tinha que substituir os raios partidos para poder continuar viagem. Desmontei a roda toda. Retirei o pneu, a câmara-de-ar e as tiras de borracha do aro. Removi as cabeças dos raios partidos e preparei o material de reposição para poder montar a roda.

Subitamente ouço uma dezena de metros de mim, uma buzina bem pesada. Olhei para a origem do sinal sonoro, saltei e instintivamente apressei-me a arredar o meu arsenal para fora da estrada.

Só quando já estava seguro em cima do passeio é que apercebi-me que havia perdido a oportunidade que procurava, para me ver livre do aro da bicicleta para sempre…

Na altura de voltar a colocar todas as tiras de borracha, câmara-de-ar e pneu de volta aos seus lugares, decidi fazer uma inspecção mais cuidada ao aro. A fissura lateral estava a aumentar de dia para dia e mais cedo ou mais tarde eu ficaria parado no meio da estrada com o aro desfeito.

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Sentado no passeio, via os poucos veículos a cruzarem a ponte sem grandes cuidados. Olhava para o aro e tentava engendrar algum tipo de solução, para o caso de não arranjar material de substituição.

Não saia nada do meu cérebro já queimado pelos problemas da roda. Não valia a pena continuar ali sentado. Tinha que me fazer à estrada e seguir para Save.

Antes de me levantar, aquando do registo do momento vivido, seriam necessárias 4 fotografias para que eu aparecesse a esboçar um semi-sorriso.

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Quase 1 hora depois de ter sido forçado a interromper a etapa, eu e a bicicleta estávamos em condições para prosseguir viagem. E para celebrar o regresso à estrada, nada mais nada menos que o assombroso sinal de indicação da minha proximidade a Maputo…

“Tão perto de Maputo e tão longe de Save…” – pensei.

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A minha performance estava agora longe dos níveis do início do dia. Por um lado devido ao vento que tinha alterado a sua direcção, por outro lado a uma importante baixa de rendimento das minha pernas.

Aos poucos começaram a surgir dores musculares um pouco por toda a parte, a maior parte delas junto aos joelhos. Para combater a queda de prestação física também para saciar o estomâgo, colocava os dentes nas bolachas de coco e nas bananas que ainda transportava comigo. Pouco depois decidi parar para ingerir outro tipo de “açúcares” numa Coca-Cola servida à temperatura ambiente.

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O efeito vitalizador da bebida fora pouco ou mesmo nenhum. Continuava a queixar-me para mim mesmo das dores musculares que repentinamente haviam surgido, principalmente junto dos joelhos.

Ainda tinha pela frente cerca de 1h30 de viagem e as minhas pernas mal conseguiam rodar os pedais. Há muito que deixara de exercer um esforço acima das minhas capacidades, contudo cada vez que perfazia um giro de 360º, parecia que os quadríceps, isquiotibiais e os adutores, se rasgavam por estiramento.

Tentava massajar as pernas enquanto pedalava, numa tentativa de relaxar os músculos. Porém as dores eram tantas que não me permitam grandes exageros nos movimentos dos meus dedos sobre as minhas pernas.

As longas rectas que eu tinha que percorrer, tornavam o final da etapa maçudo e de difícil abstracção mental. Paradoxalmente era exactamente nestes momentos que dava por mim a viajar no passado e a percorrer todas as etapas anteriores, desde a saída de Luanda até este mesmo lugar.

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Nos inúmeros momentos de introspecção que tivera nos últimos meses, nunca havia revivido as etapas de Angola tão frequentemente como acontecia nos últimos dias. O recordar dos primeiros dias, das primeiras etapas, das primeiras noites pairava na minha mente com uma certa assiduidade.

As experiências e contactos com as populações do interior de Angola, os primeiros medos e receios, as primeiras dúvidas, as primeiras descobertas, e tudo o que acontecera nos primeiros 22 dias da minha viagem, estavam agora mais vivos do que nunca no meu consciente.

Recordava com bastante clareza o primeiro dia de viagem e a estadia em Maria Teresa. Recordava a subida do Morro do Binda que quase levou-me a pedir uma boleia até ao topo… a estrada de Saurimo para Luena. O isolamento entre Luena e Lumbala N’Guimbo… e posterior viagem de canoa até à Zâmbia, onde passaria 3 dias a empurrar a bicicleta na areia...

Talvez estas recordações fossem fruto da minha constante preocupação em encontrar-me a pedalar já “dentro do jardim, com a porta de casa à vista” e consequente término da viagem… ou simplesmente fruto de um dito que alguém escrevera “… vive cada dia como se fosse o primeiro…”.

Fosse qual fosse a razão das recordações, estas acabavam sempre por rebaixar “o presente”, assombrado por dois aros partidos, 28 furos, cerca de 30 raios partidos, e mais alguns “inconvenientes” e preocupações… para os quais a minha paciência já se encontrava no limite.

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A meio das minhas introspecções sobre o balanço da minha viagem, sou recordado o quanto fatigadas estavam as minhas pernas

Nesse mesmo momento apercebo-me que doía-me tudo que fosse músculo, tendão, nervo, articulação, cartilagens e até mesmo alguns ossos.

A fraqueza aos poucos apoderou-se do meu corpo, tornando os últimos quilómetros até ao Save numa autêntica tortura física, mais pelas diversas dores sentidas do que pelo cansaço físico.

A sombra do meu lado esquerdo, recordava-me que o fim-de-tarde estava próximo, todavia não era questão que me preocupasse visto ter Save ao fundo no meu horizonte. Em menos de 10 minutos estaria (finalmente) no destino da etapa do dia.

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Poucos minutos depois, encontrava-me a descer uma simpática recta em direcção à ponte sobre o rio Save e que me levaria à população com o mesmo nome. Localidade onde eu ansiava chegar para uma urgente reposição de calorias e o merecido descanso para os dois membros inferiores do meu corpo, depois de um bom banho quente.

DSCF8134 Durante a descida para a ponte, seria obrigado a canalizar quase toda a energia disponível para os meus músculos faciais.

 

Só deste modo conseguiria sorrir e cumprimentar um grupo de mulheres que seguia em sentido contrário, da mesma forma alegre com que me saudavam.

 

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Assim que eu entrava na ponte e cruzava o rio Save, deixava para trás a Província de Sofala para entrar na Província de Inhambane.

A povoação de Save era logo do outro lado da ponte.

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Aquando da minha chegada à outra margem, deparei-me com pouco mais que uma portagem, um Posto de Controlo Policial e um punhado de barracas.

Por momentos ainda esperancei que a vila estivesse afastada da Estrada Nacional 1 e que fosse um pouco melhor apetrechada do que aquilo que os meus olhos avistavam. Mas em poucos minutos de conversa com um Agente da Autoridade, acabei por aceitar que Save era ali mesmo… onde eu estava.

Num pequeno alto, havia um edifício em semi-ruinas que era “o” restaurante.

No entanto, para que eu pudesse comer qualquer coisa, teria que mandar comprar uma galinha (viva) para que a cozinheira do restaurante conseguisse preparar alguma comida para mim.

Na parte de trás do estabelecimento havia quartos para alugar.

Escolhi o melhor dos quartos instalei-me nos meus novos aposentos.

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O quarto não tinha luz eléctrica. A única claridade que havia, era a que entrava pela porta e a que entrava por um buraco quadrangular que havia numa das paredes.

Existia uma janela tapada com tábuas de madeira, onde havia frinchas nas quais conseguia enfiar um dedo. Teria que aplicar a rede mosquiteira para me proteger de algum moscardo que passasse pelas brechas das tábuas.

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A cama… O colchão estava assente em quatro grades de bebidas e afundava cada vez que me sentava a meio.

A porta do quarto não fechava e eu tinha em cima da cama uma caixinha de fósforos para acender as minhas velas. Enfim… Não precisava de mais nada… Estava perfeito para deitar o meu corpo, que começava a acusar um certo estado febril.

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Para tirar as febres do corpo, tomei um banho (de balde e caneco) numa das ruínas do edifício principal. A água previamente aquecida na fogueira, não era suficiente para trazer o meu organismo de volta a uma temperatura normal. Com um caneco, despejava a água quente sobre a minha cabeça, mas assim que esta chegava ao nível das orelhas já ia morna… e quando passava dos ombros para baixo já ia fria.

Nos instantes em que recarregava o caneco com mais água quente, sentia o meu corpo a tremer por todos os lados, obrigando os músculos a contraírem-se, limitando por sua vez o normal movimento dos membros.

Depois da tortura do banho “pseudo-gelado”, dirigi-me à sala de refeições para comer a minha galinha. Naquilo que um dia já fora um restaurante, sentei-me e forcei-me a mim mesmo a comer toda a refeição até ao último grão.

Estava a sentir febre e fraqueza e esta era sem dúvida, uma maneira de repor as energias.

Quando recolhi ao quarto, não senti grandes melhoras no meu metabolismo. Hidratei-me bem, vesti mais roupa e deitei-me com 2 cobertores na cama para combater o frio. As dores musculares continuavam fazendo-me crer que ou eu forçara demais a minha pedalada na etapa do dia, ou então estaria com princípios de malária…

A tremer de frio e ainda antes de adormecer, senti os poros da minha pele a abrirem-se e a libertarem fluidos salgados…

A manhã do dia seguinte seria para o tira-teimas… estaria doente ou não? …

De Muxungue a Save, percorrera 111Kms em 6h43m, em que estive parado durante 1h40 em reparações e alimentação. Mesmo asssim atingira uma das médias mais altas de toda a viagem (22Km/h) mesmo tendo uma abrupta queda de rendimento no último ¼ da etapa.

Se calhar não estaria tão doente assim como pensava… talvez fosse só cansaço…