Moçambique (Pindura – Marrupa)

 

Acordei repleto de inchaços resultado das mordidelas dos moscardos que me acompanharam durante a etapa do dia anterior.

Levantei-me, ainda não eram as 6h00. Comecei a arrumar a tenda e o resto da tralha de volta à sua posição na bicicleta.

Lá fora o Sol já brilhava bem forte, no entanto estava um frio de rachar. Só desejava que o dia aquecesse depressa para evitar que eu pedalasse com os maxilares a tilintar.

DSCF5919Pedi para ferverem um pouco de água com o objectivo de poder preparar o meu pequeno-almoço, ou seja um prato de farinha láctea.

 

Reparei que todos me olhavam com um ar curioso enquanto eu misturava a farinha com a água.

 

Pedi um segundo prato e preparei mais papa para dar às duas crianças que estavam penduradas nas capulanas das mães.

Comecei a comer o meu prato de papa enquanto o filho do chefe do posto distribuía o segundo prato de papa por todos os presentes, quer fossem adultos ou fossem crianças.

DSCF5923Segundo me explicaram, era a primeira vez que provavam uma farinha láctea (tipo Cerelac) e os seus rostos comprovavam isso mesmo.

Deixavam a papa na boca por algum tempo antes de a engolir, enquanto os seus olhos aguardavam o impulso cerebral que lhes informaria se o sabor da mistura era bom ou não.

Por vezes lá se via uma ou outra contracção de um músculo facial como quem estranha a comida, mas no final todos disseram que era bom. Deixei o resto do pacote de farinha com o representante da família e continuei a ingerir aquilo que seria a minha fonte de energia para a etapa do dia.

Tornei a certificar me sobre a questão “leões”, ao qual esclareceram-me “Tem leão, mas não faz mal… é só à noite… vai passar… Também tem elefante e tem búfalo…”

Abasteci-me de água (do poço) para a viagem, despedi-me da família que me acolheu e fiz-me à estrada.

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Eram 8h00. Contava chegar a Marrupa à hora do almoço, afinal seriam apenas 90Kms até ao destino final. Em condições normais necessitaria cerca de 5 horas para cobrir a distância necessária.

Tal como no dia anterior a estrada continuava deserta, em parte devido ao fim-de-semana prolongado e às comemorações do Dia da Independência.

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Passou mais de uma hora para que eu encontrasse a primeira pessoa desde que saíra de Pindura. Vinha também de bicicleta.

Antevira um resto de etapa bastante difícil para as minhas pernas. Ainda tinha poucos quilómetros percorridos e já mal conseguia manter a bicicleta a rolar com velocidade aceitável.

Sentia as pernas pesadas e presas. Parecia que tinham molas em todos os pontos de articulação, evitando que se movessem com a espontaneidade esperada.DSCF5967A minha velocidade média estava abaixo dos 15Km/h, levando-me a crer que não chegaria a Marrupa antes das 14h30.

Pedalava por entre montes e vales, que me obrigavam a esforçar demasiado umas pernas prematuramente cansadas. Encontrava-me rodeado por paisagens fabulosas onde os maciços cabeços graníticos davam lugar a cumes verdejantes.

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Aqui e ali encontrava ao longo da estrada detritos de elefante, que faziam-me recordar que ainda circulava na área deles.

À medida que o Sol se elevava no céu, a temperatura ambiente também subia (mas ligeiramente). Consequentemente todo o tipo de moscardos e afins vinha para estrada à procura de alguma coisa para picar. Essa coisa era eu.

DSCF5946 Voavam ao meu lado com tal facilidade que parecia que eu estava parado.

Por vezes ainda davam voltas à minha frente para de seguida voltarem para trás, como quem demonstra a sua superioridade na capacidade de deslocação.

 

Acabavam sempre poisadas nos meus calções ou nas minhas costas, para com os seus ferrões atravessarem todos os tecidos que eu trazia vestido, acabando sempre por me perfurar a pele.

Não tinha que esperar mais de 5 minutos para ficar com um carocito no sítio da mordidela, que no dia seguinte se transformaria num grande inchaço.

Alguns dos esvoaçantes mais radicais, decidiam fazer voos rasantes ao meu capacete. Na maior parte das vezes entravam pelas frinchas do capacete e acabavam entalados entre este e a minha cabeça. Numa tentativa de se libertarem zoavam as asas a alta frequência ao mesmo tempo que cravavam o ferrão no meu couro cabeludo.

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Eu tentava aliviar o capacete para que o insecto conseguisse sair, mas por vezes era mais fácil fazer uma simples pressão no capacete para a esquerda e para a direita, acabando de vez com o sofrimento de nós os dois.

Estes moscardos, os quais esperava que não fossem moscas tsé-tsé, eram agora uma constante da viagem.

De nada adiantava sacudi-los ou tentar pedalar mais rápido pois acabavam sempre poisados no meu corpo ou nas malas da bicicleta.

Uma vez mais fui obrigado a despejar insecticida pelas minhas vestes, corpo, capacete e malas da bicicleta, numa tentativa desesperada de manter a bicharada afastada de mim.

A penúria das minhas pernas mantinha-se. Havia pedalado 1/3 da distância até Marrupa em pouco mais de 2 horas. Estaria condenado a passar mais 5 horas a pedalar até chegar ao destino e com as pernas neste estado.

As músicas do iPod já não tinham o efeito estimulador de outrora, a sua contribuição para um aumento de ritmo era praticamente nula.

Não entendia a razão de ter as pernas num estado de cansaço extremo. Considerava que em Cape Maclear e em Lichinga, havia descansado o suficiente, não havendo um motivo para o desgaste que as pernas apresentavam. Comecei a colocar em cima da mesa a hipótese de permanecer um dia em Marrupa e assim permitir que as pernas relaxassem e recuperassem a condição física.

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Continuava sozinho sem me cruzar com outros veículos, ciclistas ou simplesmente peões.

Perguntava a mim mesmo se estaria a atravessar alguma zona de animais selvagens ou se seria assim mesmo.

Por vezes dava por mim a imaginar qual seria a táctica para subir a uma das árvores que se encontravam ao longo da estrada, caso me deparasse com algum felino. Mas creio que não teria muita sorte porque a única árvore que me pareceu ser acessível, era também do alcance de um leão apoiado apenas nas patas traseiras.

Continuava a lutar para vencer a tormenta existente nas minhas pernas. Já nem as bananas nem as bolachas de chocolate conseguiam fornecer energia para as minhas pernas pedalarem 20 ou 30 minutos sem se arrastarem.

Estava a pedalar há mais de 3 horas e tinha apenas metade da distância percorrida. Não havia qualquer lugar onde eu pudesse parar para descansar, para comer ou para beber alguma coisa. Tudo à minha volta era mato.

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O vento que aos poucos e poucos começava a surgir, em quase nada influenciava o meu andamento, pois deslocava-me a velocidades muitos baixas (por vezes a 12Km/h), contudo contribuía para a descida de temperatura.

Pedalada atrás de pedalada tentava manter a bicicleta em linha recta e tentava não pensar nas horas que ainda teria pela frente até concluir a etapa.

Continuava sem ver vivalma nem vestígios de qualquer população. A única coisa que encontrava era excremento de elefante, o que queria dizer que eles andavam nas proximidades.

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Faltavam agora 30Kms para Marrupa. Se fosse noutra ocasião qualquer eu diria “Faltavam apenas 30Kms” os quais seriam percorridos em 1h30m. Mas no caso do dia de hoje a noção de distância era completamente diferente. Poderia mesmo dizer que “Faltavam ainda 30Kms”, que segundo a minha velocidade média actual (10Km/h) resultaria em mais 3 horas a pedalar.

Pouco passava da hora do almoço quando avistei pela primeira vez, algumas habitações feitas de barro e palha. Era certo que aproximava-me de Marrupa.

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A euforia que abundava na minha mente não era correspondida pelas minhas pernas. Tentava apressar o ritmo com o objectivo de percorrer os quilómetros remanescentes o mais rápido possível, no entanto nada brotava destas tentativas estéreis.

Tinhas as pernas maçudas e desgastadas. Não havia nada a fazer. Teria que aguentar a tormenta física e o selim cravado nas nádegas por mais uns longos quilómetros, até que as minhas pernas resolvessem chegar a Marrupa.

Quase uma hora depois, avisto o primeiro sinal da existência de uma povoação. Umas bombas de combustível.

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Pedalei os últimos quilómetros de pé, pois já não aguentava o efeito nefasto do “Cabo das Tormentas” onde viajara durante as últimas horas.

Alguns minutos mais tarde apareceu a tão esperada placa com o nome da povoação… “Marrupa”…

 

Finalmente havia chegado a Marrupa.

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Os 93Kms de Pindura até Marrupa haviam sido percorridos em 6h55m, dos quais dediquei ao descanso apenas 11 minutos. Durante a etapa contabilizei um total de 1.356m de ascensão acumulada.

Ao entrar em Marrupa deparo-me com uma pequena cidade (ou uma vila grande), bem ordenada, com as ruas limpas e com habitações recuperadas.DSCF5987

À minha esquerda estava um grande parque infantil, onde alguns rapazes jogavam à bola enquanto os mais novos entretinham-se com os baloiços.

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Ao virar da esquina, entro numa avenida com separador central e candeeiros ao centro. Ao fundo do lado esquerdo estava o mercado. Do meu lado direito encontrava-se a igreja e a pensão “Safari”.

A pensão Safari seria o local escolhido para eu saciar a minha fome e também para pernoitar.

Faltavam 10 minutos para as 16h00, quando fui servido com um (abastado) prato de esparguete e galinha o qual ocuparia o lugar do meu almoço.

O meu apetite e a minha sede mantinham-se insaciáveis. Durante a refeição e enquanto conversava com os meus novos amigos (o Constantino e o Máquina) à cerca da viagem, bebi 4 latas de Fanta sem notar.

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Aproveitei para tentar obter algumas informações relativamente à ligação Marrupa-Montepuez.

Já sabia que a estrada era em picada, mas pretendia confirmar se era ou não transitável (areia ou rios), quais as povoações existentes e como não podia deixar de ser, se existiam leões nas proximidades.

As respostas vieram por ordem inversa à das perguntas. Em primeiro lugar fui esclarecido que a zona dos leões era a que eu já tinha atravessado. Esclareceram-me também que se eu quisesse ver leões deveria pedalar somente 10Kms para Norte em direcção a Mecula, local onde seguramente encontraria os ditos felinos.

DSCF5992Como eu iria em direcção a Este, certamente não teria problemas nem com leões nem com leopardos, no entanto não era aconselhável pedalar durante a noite.

Quanto às povoações existentes nos 210Kms entre Marrupa e Montepuez, havia Nungo a 37Kms de Marrupa e havia Balama a 56Kms de Montepuez.

Aparentemente não havia nenhuma vila a meio do caminho de maneira que eu pudesse cobrir os 210Kms em dois dias.

Relativamente ao estado da estrada, informaram-me que até Nungo a estrada estava boa (picada). De Nungo até Balama eram aproximadamente 115Kms de estrada má.

Tanto o Constantino como o Máquina tinham sérias dúvidas sobre a condição da estrada, contudo sempre referiram com um certo optimismo, que daria para eu passar.

Eu estava consciente que quando um Africano diz para um Ocidental que “…a estrada é má…”, isso quereria dizer que a estrada era mesmo muito má. Contudo senti a adrenalina subir à cabeça e a ansiedade a circular nas minhas veias - “Iria voltar para o mato e para as estradas de terra”.

Eram as 16h40 e estava na hora de fazer um retiro até ao meu quarto que ainda não visitara.

Não sentia algumas partes do meu corpo. Desde que me sentara no restaurante da pensão que as pernas, as nádegas, os punhos e o pescoço pediam um bom duche quente para relaxarem.

Não foram necessários mais de 15 segundos dentro do novo quarto para eu me aperceber que o meu “duche” seria a balde e com água fria. A iluminação da casa-de-banho era feita através de uma vela posicionada estrategicamente em cima do autoclismo.

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A iluminação do quarto devia-se à luz solar ainda existente no exterior, mas brevemente teria que acender 1 ou 2 velas para conseguir ver dentro do meu aposento.

O buraco no tecto do quarto e o contraplacado podre, faziam-me tomar providências extra para evitar ataques e me defender dos insectos nocturnos.

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Depois da 20h00 voltei a reunir-me com os meus novos amigos no restaurante da pensão, desta vez para jantar.

Como já não havia galinha na cozinha para acompanhar com o esparguete, eu decidi fornecer as minhas latas de sardinhas à cozinheira. Assim seria possível preparar um bom jantar.

A explicação de não haver galinha na cozinha veio da parte do Constantino e era muito elementar.

A galinha do campo era chamada galinha Mutola em homenagem a Lurdes Mutola (a multi medalhada atleta Moçambicana e detentora de vários recordes nos 800m e 1000m).

“Galinha Mutola é a galinha que você sai de manhã cedo a correr atrás dela, para apanhá-la ao final da tarde e cozinhá-la ao jantar”.

Agora só amanhã de manhã é que alguém sairia a correr atrás de outra galinha.

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O serão era feito no salão do lado também pertencente à pensão. O salão não passava de uma sala com várias cadeiras dispostas tipo “sala de cinema” e onde cobrava-se entrada a todos aqueles que quisessem assistir televisão.

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Definitivamente iria ficar um dia em Marrupa para descansar as pernas que teimavam em permanecer pesadas.

Moçambique (Majune – Pindura)

 

Festejava-se hoje o Dia da Independência de Moçambique.

Na modesta pensão onde estava alojado, havia pedido o pequeno-almoço para as 6h30 na expectativa de iniciar a etapa do dia o mais cedo possível. Era do meu conhecimento que para iniciar o processamento do esparguete, seria necessário preparar o carvão, lavar as panelas sujas do jantar da noite anterior e por fim ferver a água. Todo um processo que levaria o seu tempo e que me obrigava a manter uma certa pressão na área destinada à confecção do meu pequeno-almoço.

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Durante as serenidades do sono, havia conseguido encaixar a distância de 180Kms (até Marrupa) nas minhas matemáticas celestiais. Seria uma tarefa bastante arriscada, mas era teoricamente possível chegar a Marrupa antes de o Sol se deitar.

Comi em poucos minutos a segunda metade do pacote de esparguete, desta vez sem sardinhas a acompanhar.

DSCF5840Com o estômago preenchido, desloquei-me ao mercado para me abastecer de bananas. Não queria passar fome durante a dura etapa que tinha pela frente.

Pouco passava das 7h30 quando iniciei a tirada para Marrupa. O dia estava fresco e com poucas nuvens, levando-me a crer que não havia razão para vestir o impermeável.

Continuava a percorrer quilómetros de estrada, por entre maciços de granito que se espalhavam até perder de vista.

Durante a primeira hora e meia de viagem, havia pedalado com uma boa velocidade média apesar das subidas e descidas que enfrentara.

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A partir da segunda hora a imputar movimentos circulares aos pedais, as minhas pernas começaram a fraquejar. Era-me cada vez mais difícil manter a velocidade média pré-estabelecida.

DSCF5855 Ia ingerindo bananas e algumas bolachas de chocolate na expectativa que o organismo reagisse à introdução de calorias, todavia a reacção não era a esperada. Não entendia o porquê da falta de desempenho, uma vez que descansara dias suficientes em Lichinga e que encontrava-me bem alimentado.

 

De Majune até Marrupa não tinha nenhuma vila assinalada no mapa, pelo qual não sabia o que poderia encontrar nem para descansar nem para comer.

A temperatura ia subindo ao longo do dia e com isso todo o tipo de moscas resolvia sair das suas casotas para me vir chatear.

Se eu quisesse parar para descansar ou para comer qualquer coisa, era automaticamente atacado pela bicharada voadora que com os seus ferrões atravessavam as minhas vestes e perfuravam o meu corpo.

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Mesmo pedalando mais rápido, haviam um tipo de moscas (parecidas com a mosca Tsé-tsé… ou talvez não) que conseguiam acompanhar a velocidade da bicicleta. Quando se cansavam simplesmente pousavam nas minhas malas e iam à boleia até retomarem forças para voltarem a voar em torno dos meus ouvidos, dos meus olhos ou simplesmente ferrarem um pedaço de pele que estivesse desprotegido.

Fui obrigado a pulverizar insecticida (não foi repelente) nas malas, nas minhas costas, no capacete, nas pernas e afins como última tentativa de manter os perfurantes moscardos à distância.

Tal como no interior de Angola, era normal passar mais de uma hora sem ver vivalma. Nem autóctones ao longo da estrada, nem veículos a transitar entre Lichinga e Marrupa. Eram períodos de estranha solidão, que pareciam mais longos quando eu pensava em possíveis encontros com a fauna local.

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Estava agora a pedalar perto da Reserva do Niassa e a probabilidade de me encontrar com algum exemplar de quatro patas era cada vez maior.

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Por fim encontrei um rapaz que caminhava ao longo da estrada. De certa maneira tranquilizou-me a sua presença, pois significaria que algures nas redondezas havia uma aldeia.

Parei a bicicleta ao seu lado. Cumprimentei-o e de seguida perguntei-lhe se havia leões na área. A resposta não podia ser mais clara:

-Sim… aqui tem leões… mas só aparecem à noite.

Pela primeira vez alguém dizia “aqui tem leões”, em vez de dizer que os “leões… só lá mais à frente”.

Comecei imediatamente a colocar em cima da mesa a hipótese de pernoitar pelo caminho, não só porque chegaria a Marrupa depois das 17h00, como também porque as minhas pernas não estavam a manter o desempenho esperado.

A paisagem era cada vez mais densa e verdejante, sendo quase impenetrável ao olhar alheio.

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Os Moçambicanos festejavam o Dia da Independência. Não havia nenhum veículo nem pessoa a circular na estrada. Estavam todos nos comícios, nas festividades, nos botecos ou simplesmente em casa. Apenas eu circulava naquela estrada, onde uma vez mais voltava a estar entregue aos ruídos do mato e à zoada da bicicleta.

DSCF5866 Tinha o iPod desligado e todos os meus sentidos em alerta. Tentava ver para além do limite que a vegetação me permitia ver, numa tentativa de descortinar a forma de algum animal conhecido.

Levava a sensibilidade dos meus ouvidos no nível máximo, de modo que o simples bater das asas da descolagem de um passarinho fazia-me saltar do selim, elevando o número de batimentos cardíacos por minuto.

Voltava a pedalar sob a pressão psicológica de encontrar algum felino durante a etapa.

Tentava distrair a minha mente com outro tipo de assuntos, numa tentativa de aliviar a tensão. Mas mais cedo ou mais tarde a mente acabava por voltar a se concentrar na realidade que a rodeava.

Passavam 15 minutos das 12h00, quando ouço um barulho na minha retaguarda. Era um barulho que se aproximava de mim com um estilo bastante familiar.

Era um ciclista!

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Após as primeiras notas introdutórias, perguntei-lhe qual era a próxima aldeia ou vila onde eu poderia comer ou pernoitar.

Este indicou-me Pindura a poucos quilómetros do local onde nos encontrávamos.

Pindura era um “Posto Administrativo” e como tal poderia me proporcionar melhores condições. Depois de Pindura voltava a não haver vilas até à chegada a Marrupa.

Alguns minutos depois, chegámos a Pindura.

Pindura era uma pequena vila com 2 ou 3 construções de cimento. As restantes habitações eram feitas com matéria-prima local.

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Dirigi-me àquilo que considerei ser o centro da vila, um pequeno espaço aberto onde estavam algumas pessoas. Rapidamente fui acolhido pela população local com inúmeras perguntas acerca da minha viagem e com convites para ficar em Pindura.

Ainda não eram as 13h00. Pela frente tinha cerca de 4 horas de luz solar, o que me levava a realizar alguns cálculos sobre a possibilidade de continuar para Marrupa. Contudo as minhas pernas não estavam muito receptíveis à ideia de voltar ao activo e optei por passar a noite em Pindura.

À primeira vista, as únicas construções de cimento eram, o Posto Administrativo, o Posto Médico e a Escola. Uma vez que a escola ainda estava em construção, só me restava montar a tenda ao ar livre ou montar a tenda dentro do Posto Administrativo. Após uma troca de ideias com o chefe do posto, acabei por ser autorizado a montar a tenda dentro do edifício estatal.

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O mesmo chefe colocou à minha disposição a área do banho (a balde) e mandou preparar almoço para mim.DSCF5917

 

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Após tirar o pó do corpo e já vestido à civil, preparei-me para a primeira refeição da tarde.

Sentei-me em cima da esteira onde colocaram um prato com shima e outro prato com carne. De lado estava a malga onde eu iria lavar as mãos e à minha frente estava um jarro com água.

Perguntei se a água que estava no jarro era para lavar as mãos ou se era para beber. A resposta chegou sem o uso de qualquer palavra. Com uma curta demonstração, o filho do chefe de posto encheu o copo de água e em seguida bebeu-o. Estava assim esclarecido que a água do jarro era para eu beber e que esta não era água inquinada.

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Dei início ao meu almoço, comendo a shima com as mãos e molhando-a no molho da carne.

Olhava para os pedaços de carne, um pouco apreensivo. Tentava adivinhar qual a origem da carne, há quanto tipo o animal havia sido abatido e há quanto tempo a carne havia sido cozinhada. Mesmo sem qualquer resposta às minhas dúvidas decidi avançar e provei um bocado de carne.

A carne tinha um sabor peculiar. Não parecia ser vaca nem cabrito e os ingredientes usados na confecção tornavam ainda mais difícil a sua identificação.

Perguntei aos meus novos amigos qual a proveniência da carne. Estes responderam-me sem qualquer hesitação “É búfalo…”.

“Búfalo!”, pensei um pouco intrigado. Isso significaria que havia búfalos nas imediações do meu percurso de bicicleta. Já não bastavam os leões, os leopardos e os elefantes, agora teria que me preocupar também com os búfalos.

Outra questão que se levantava era se eu estava a comer um produto de caça furtiva ou não. Mas rapidamente as dúvidas esmoreceram-se quando ouvi a explicação dos anfitriões “É ilegal caçar búfalo dentro da Reserva… e a Reserva é para lá da estrada. Para o lado de cá já não é Reserva…”.

Comemorava-se o 35º aniversário da Independência de Moçambique e isso era motivo para uma visita à discoteca da zona.

Tal como qualquer outra habitação local, a discoteca era feita de tijolos de barro e telhado de capim. A alguns metros dali, um pequeno gerador tentava fornecer energia para a aparelhagem de som.

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Entrei pela pequena porta, baixando um pouco a cabeça a fim de evitar ficar com o capim do telhado espetado nas vistas. Uma vez lá dentro fui conduzido ao local onde iria me sentar.

Fiquei instalado num dos extremos da pequena discoteca. Do meu lado esquerdo estavam dispostas 3 cadeiras e do meu lado direito outras tantas. Nelas estavam sentados os homens adultos que dançavam à vez no centro da pista. Lá fora encontravam-se os mais novos que também saltavam e dançavam ao som da música. As mulheres sentadas todas juntas debaixo de um alpendre, vigiavam a pequenada que em correrias de vaivém provavam a si mesmas não terem medo do branco que se encontrava no meio delas.

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A discoteca não tinha serviço de bar. Quem quisesse refrescar a garganta teria que se deslocar ao tasco vizinho a 3 centenas de metros e comprar a bebida desejada.

Eram as 18h30, estava na hora do jantar. Pindura não estava provida de energia eléctrica pelo qual a iluminação da aldeia era feita pela lua e pela minha pequena lanterna.

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Voltei a juntar me ao chefe de posto e aos homens da sua família. Sentámo-nos à volta da esteira onde estavam dispostos os pratos com shima e com a carne de búfalo. Sem o uso de talheres, o patriarca esquartejou alguns bocados de carne e dividiu pelos presentes.

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As mulheres da família estavam ali muito perto mas sem se juntarem ao grupo dos homens.

No meio da escuridão conseguia aperceber me que preparavam o seu jantar e tentavam manter as crianças entretidas para não perturbarem os outros adultos.

 

 

Voltei a colocar em cima da mesa (leia-se esteira) as minhas dúvidas relativamente à existência de leões na zona. Como resposta obtive a confirmação daquilo que já ouvira antes, “Existem leões… mas vai passar”.

Ao qual foi acrescentado um comentário inédito “ a zona mais arriscada já passaste…”.

A tranquilidade transmitida pela sapiência local apenas impunha uma condição. Eu não deveria pedalar de noite.

Após o jantar e já de barriga cheia recolhi-me na minha tenda cheio de vontade em iniciar a próxima etapa até Marrupa.